A CANETA DO TOMÁS

por JÚLIO BORGES

Docente

Corre, cochichado, pelas paredes, corredores e salas da escola do Tomás, um boato secretíssimo.

Bichanado entre dentes, aos ouvidos dos meninos, com reservas e precauções “Não contes, que é segredo!!!”.

O Tomás também ouviu, não de um colega, mas de todos, sem exceção à regra. Até daquele Fifi, Filipe Fialho, inimigo de todos os alunos que, como o Tomás, achavam que a diversão era mais importante que a instrução.

Mas qual seria o boato? O boato segredado, murmurado, aos ouvidos dos ouvintes? Eu conto, mas não podem contar que é segredo!!!

Diz-se pelos corredores, da escola do Tomás, que escondido numa sala da cave, existe um artefacto, uma caneta mágica, outrora guardada por um mágico feiticeiro, daqueles que sabem poções para insónias e mau-cheiro. “Quem a caneta encontrar, tudo depressa saberá, e seguindo as instruções o aluno mais inteligente da escola será.”

Tomás, rapaz dado à aventura, traçou mentalmente um plano, para caça futura. Onde poderia estar a caneta? Onde haveria de a encontrar? O mais lógico era estar, onde ninguém pudesse imaginar!

Convicto da necessidade de tal artefacto achar, aguardou pelo entardecer até a escola fechar. Procurou na sala das máquinas, onde a caldeira bufava, apertada pela pressão piava, piava. Piiiiiiiii, Fuuuuuuuuuuu. Que barulho! O que ela silvava!

Decidiu então procurar no armazém de material desportivo onde bolas e bolinhas, barreiras e cordas aguardavam o momento de encantar os alunos mais desportistas.

Sendo a busca vã, estando Tomás cansado, procurou no único sítio onde não havia procurado, no PENA “Perdidos, Encontrados, Não Apreendidos”.

O PENA era um local assustador, repleto de prateleiras, preenchidas com caixas e caixotes insuflados de roupa e calçado que parecia escorçar-se para fugir dali. O cheiro a bafio e mofo agarrava-se à faringe arranhando tudo à sua passagem. Alguns dos caixotes, com datas do século passado, decorados de teias de aranha, jaziam nas prateleiras amorfos, indolentes, moribundos de novidades.

A porta ao abrir chiava com um grito, gemido de dor. Lá fora o dia terminara e a luz da lua e da iluminação artificial tornava o espaço ainda mais tenebroso. Tomás ouvia os seus dentes a bater, os joelhos a tremer, o coração a bombar e garras a arranhar. Eram um pequeno ouriço e um ratinho do campo, assustados com tanta tremedeira, fugiam a esconder-se num qualquer buraco da escola.

Olhou, observou, remexeu. Caixas caíram sem estrondo, apenas sons secos e abafados como o esquecimento a que todos os artigos haviam sido largados.

No fundo de uma prateleira, bem escondido atrás de embrulhos e caixotes, um pequeno cilindro de cartão jazia na sombra de todo aquele amontoado de coisas perdidas e achadas.

Os olhos de Tomás brilharam. A esperança já quase perdida reacendeu, e, Tomás, teve naquele momento, a certeza de que estava salvo para o teste de álgebra da semana seguinte.

Empilhou alguns caixotes, escalou a íngreme e instável montanha, segurou o cilindro com força e abrindo uma das janelas da cave deixou para trás a escola e correu para casa, certo que havia achado o artefacto que o tornaria o melhor, o mais sábio da escola.

No seu quarto, na penumbra, a expetativa e excitação pairava no ar como a névoa da montanha que desce até ao prado. Tomás abre o cilindro e lá dentro coberto de pó vê um velho pergaminho e uma pena. No velho pergaminho podia ler-se:

“Todo aquele que na sabedoria procure inspiração.

  Todo aquele que aprecie a instrução.

  Todo aquele que queira melhorar,

  Na PENA da sabedoria a esperança deverá depositar.

 Com tinta e pena o saber deve copiar,

  Pelo menos cinco vezes até a pena o assimilar,

  E saberá de seguida tudo o que precisa,

  Para provas demonstrar,

  E como bom aluno passar.”

Satisfeito por descobrir forma de ser o melhor, Tomás pegou em papel, num tinteiro velho do avô e na pena e copiou a matéria de álgebra que o professor havia mandado estudar.

E dias depois após a prova, foi aplaudido por todos. Tomás conseguira a melhor nota da sala, a melhor nota que alguma vez um aluno tivera na escola.

Mas não pensem vocês que Tomás foi o melhor apenas a álgebra, todos os professores ficaram orgulhosos do aluno excelente que Tomás se tornara. O único que não estava satisfeito era o Fifi.

E certo dia passando pelo professor Mag Icodaca Neta, o professor mais velho da escola apenas ouviu:

 

“Para provas demonstrar,

  E como bom aluno passar.

  Pelo menos cinco vezes a lição deves estudar.

  Com pena ou sem pena,

  O importante é praticar.”

 

Ilustração: Bárbara Correia da Silva  – Aguarela s/ papel

 

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