A NOVA ESTÉTICA DE LEGITIMIDADE AUTÁRQUICA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Domingos Bragança sabe que não é um orador de soud byte tonitruante, essa novilíngua da frase de abrir telejornais e matar inimigos com a expiração de palavras. Mas desenganem-se os incautos; ele sabe muito bem o que é um sound byte. E sabe também que os não produz com a abundancia das opacidades da política atual. Por mais incrível que pareça, é por reconhecer não possuir certas características tidas por habituais que Bragança ultrapassa as suas insuficiências.

E como o faz? Explorando outras qualidades que ele pensa serem de utilidade na política. Ele não tem dúvidas, por exemplo, que a amizade pode ser uma arma política. Disse-o muitas vezes: “eu sou um amigo”. E foi colocando em prática a expressão da amizade, nomeadamente dando tempo presente aos presidentes de junta, visitando-os amiúde, que gerou uma rede de afetuosidade responsável pela sua estrondosa vitória eleitoral na noite de 1 de outubro passado.

É provável que se atribua à sua postura política uma noção estratégica apenas com o intuito do voto. Mas, em simultâneo, não passa despercebido a humildade – intrínseca ou estratégica – com que aborda as adversidades. A meio da noite, posto perante a derrota do PS na disputa em Creixomil, avançou para uma análise rara: “temos de compreender melhor os desejos da população e melhorar para que voltem a confiar em nós”. A sua abordagem é sempre no sentido de retirar a excitação que parece dominar os políticos. Esse comportamento esteve presente ao longo de todo o mandato, tanto na Câmara como na Assembleia Municipal, e estendeu-se à campanha eleitoral. A sua vitória é também a afirmação de um estilo.

O que mais se destaca na vitória de Domingos Bragança é ter sido contra a melhor campanha que o PSD – coligado ou não – apresentou nos últimos vinte anos. É provável que se André Coelho Lima se tivesse digladiado com António Magalhães daí resultasse um choque de titãs, tantas as semelhanças. A abordagem da coligação “Juntos por Guimarães”, expressa no empenho, na disponibilidade, na excitação política, inclusive na estética comunicativa, soçobrou perante a abordagem do PS que, excetuando o empenho, em tudo se distanciou pela inversa: estética mais fragmentária, narrativa menos esclarecida e difusa, discurso menos centrado. Portanto a diferença fundamental só pode ser encontrada na forma de abordar.

Aqui e além ouviu-se, amiúde, a afirmação de que o estilo de André estaria muito próximo do de António Magalhães. E que esse estilo era o apropriado: o tom de autoridade e a afirmação do poder na forma de agir seriam uma espécie de exigência do eleitor típico vimaranense. De tanto afirmada, esta premissa tornou-se uma quase verdade. Nesse aspeto a expressiva votação em Bragança e a distância de Coelho Lima só pode significar a definitiva autonomia política de Domingos Bragança. Num repente, a condição de “herdeiro” que lhe era assacada dá lugar à emancipação total. Os fantasmas desaparecem e aquele que se afirmava ser uma “criatura” surge no lugar de “criador”. Trata-se de uma nova estética de legitimidade autárquica vimaranense. José João Torrinha complementou: ele teve maioria absoluta para a Assembleia Municipal, coisa que, por exemplo, António Magalhães não conseguiu em 2013.

Nesta narrativa eleitoral coube a Torcato Ribeiro da CDU a surpresa da noite. Com barbas, Torcato tornou-se tão distinto de Bragança ao ponto de ver os votos, que a capilosidade queria impedir, alojarem-se no seu putativo e nada parecido sósia. Pela primeira não haverá um vereador comunista na Câmara de Guimarães. A não ser que tenha ocorrido um fenómeno de voto útil em Portugal inteiro, a explicação do resultado comunista só pode estar ligada à canibalização decorrente da “geringonça”.

Wladimir Brito, apesar da subida dos votos do Bloco de Esquerda e da introdução de um apelo de “mais pessoas” nas decisões autárquicas, ficou bastante aquém de um mandato. Mas face à anuência de Bragança em olhar mais atentamente para o social, parece ter alcançado o seu objetivo.

De quem ninguém dá conta há mais de oito anos é do CDS. Será que ainda existe ou vai a caminho de ser o partido vimaranense da bicicleta?

 

 

 

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