A SUSTENTABILIDADE ECONÓMICA E A CRISE DE VALORES

por Carlos Guimarães

Médico

 Ao contrário da maioria dos portugueses, eu não percebo nada de economia, nem de direito, futebol ou política. Opino sobre estas matérias munido da mais elementar racionalidade que a inteligência e o conhecimento básico me permite.

Incomoda-me constatar que a economia é a grande mãe deste país, uma luz dominante sobre tudo e sobre todos em que tudo se concentra à volta de indicadores económico-financeiros, aniquilando os princípios mais básicos e estruturais do homem e a sociedade – os valores. Não conheço políticas estruturais que sejam nutridas ou que possam nutrir verdadeiros valores, e quando os valores são chamados à discussão, ficam atolados no grande e imenso lodaçal que se chama SUSTENTABILIDADE ECONOMICA. A coisa até pode ser interessante, válida e enriquecedora, amada e desejada, mas… Tem de ser sustentável economicamente! Nas fraldas da minha atividade profissional, vejo miríades de médicos e enfermeiros a correrem para pós graduações em gestão, economia e outras áreas parentes destas, mas desconheço quem se pós gradue em história, sociologia, filosofia ou até mesmo agricultura. O importante é perceber de Gestão e Economia – a grande mãe do mundo moderno. Na verdade eu até acho que eles nem querem percebem muito da coisa, mas anseiam pela graduação na coisa, pois já se aperceberam que o diploma da coisa lhes dá créditos especiais, lhes permite arrogarem-se mais do que os outros, subir na carreira e quiçá através da coisa atingir o seu topo. Não precisam de entender a política, carecem somente de se colarem à política do vespeiro, esgrimirem uns aplausos, mandar uns bitaites, fazerem uns favores e obviamente, TER GRADUAÇÃO NA COISA.

A escravatura foi abolida há muitos anos, mas no que toca à compra e venda de homens e mulheres, o negócio continua e até está em alta. Cada vez mais as pessoas se vendem, se entregam, é tudo uma questão de números. O que não é passível de ser transacionado comercialmente está a extinguir-se, não faz parte da agenda negocial, é uma matéria de baixo interesse económico e por isso esquecida – os valores. Valores sem medida mas de dimensão universal; os valores do ser humano, os valores da terra, os valores da pátria.

Os meninos estudam e gastam-se em explicações extralectivas, para terem uma boa média. Os pais empenham-se e pressionam para que os meninos tenham uma boa média. A escola concentra-se e anula-se em prol de uma boa média, de um bom lugar no ranking. O valor da criatividade é nulo, o valor do desenvolvimento de ideias não serve para nada, os alunos diferentes são moldados para serem iguais e conseguirem uma boa média. Acreditem que estamos a criar uma boa média de imbecis onde sobressaem também muitos notáveis que se distinguem pela inteligência, a criatividade e capacidade de trabalho que a escola não fomentou. A escola que eu muito respeito e admiro mas que se rege pelos indicadores impostos pelo estado a mando da grande mãe. As instituições vivem asfixiadas e a agrilhoadas em indicadores que gravitam sempre à volta da SUSTENTABILIDADE ECONÓMICA.

É bom referir que nada me move contra a sustentabilidade económica, até a defendo, mas não a aceito como sendo uma grande nuvem que cobre todo o azul do céu, ou até mesmo todo o azul celeste que não permite a entrada de qualquer nuvem.

No meio de tudo isto vamos aprendendo que gerir bem é gastar menos, cortar nos recursos humanos despedindo às hordas, encerrando espaços. Gerir bem é como abrir as portas do aviário e enxotar as galinhas, sem  querer saber para onde vão e ignorar se existem raposas à espera delas.

Eu não percebo nada de economia e talvez por isso não lhe dedique uma especial admiração, mas admiro a humildade, a ética, a sensatez, a criatividade, a solidariedade, o respeito, a dignidade, a honra e a verdade. E tenho a certeza que todos os prepotentes não passam de reles impostores e são tão dissimulados que correm o risco de se enganarem a si próprios.

 

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