A TENTAÇÃO DE SER DEUS E O DEDO DO DIABO

por Carlos Guimarães

Médico Urologista

Caros colegas de licenciatura em medicina, desculpem se vos ofendo por não vos chamar médicos, nas na verdade, ser médico é outra coisa. Sempre vos disse que não se olha de cima para baixo quando se entra num curso com aquela coisa matemática que se chama média e a qual acusa um valor superior a 18 valores.

Acreditem que o mundo está repleto de imbecis com médias dessas. Olha-se sempre de igual para igual, já que, na verdade somos todos iguais aos olhos do criador. Eu sei bem que, no fundo, achais que sois melhores, mas acreditai que isso não é verdade.

E quando recebeis o canudo e vestis a bata por direito, sentis aquele orgulho de missão cumprida e esse é mais um dos vossos grandes erros, pois toda a missão está por cumprir.

E no momento em que dobrais o cabo do exame de acesso à especialidade e ostentais uma percentagem elevada, voltais a olhar para quem está abaixo como quem é inferior – mais um erro vosso.

É triste que Portugal reduza a qualidade de uma pessoa a um valor numérico, mas na verdade não vejo vontade de mudar. Acreditai que nenhuma percentagem de perguntas acertadas faz um licenciado de medicina melhor que outro.

Se bem reparais, continuo a não vos chamar médicos e bem sabeis que não o sois. Ser médico é outra coisa e alguns de vós sê-lo-ão com toda a certeza, com toda a honra e dignidade que se exige, mas muitos outros não passarão de pobres licenciados em medicina que nada mais sabem fazer. Fazem uma espécie de medicina e convencem-se que são médicos quando na verdade não passam de tecnocratas a aplicar conceitos adquiridos.

Um vintém será sempre um vintém, e uma mentira, mentira sempre será.
Lutai sempre contra o “Senhor Doutor” já que os vossos pais vos deram nome próprio e esqueçam essa coisa de afixar no vidro do automóvel aqueles dísticos patéticos onde se lê MÉDICO. Só quem se sente inferior é que o faz e nós somos todos iguais.

Caros colegas licenciados em medicina, ao longo da vossa vida muitos dias serão abatidos a escrever curriculum, que na minha opinião servem para quase nada porque neles, nada se encontrará acerca da pessoa, do ser humano, da empatia, da capacidade de partilhar e de ser amigo sem querer nada em troca. Amigo, essa coisa importante e forte que pouco se vê.

Caros colegas, se alguns de vós chegarem a ser médicos, nunca se esqueçam que quem vos consulta é diferente de vós, mas vós podereis ser iguais a eles.
Sejam fortes e inteligentes e esqueçam essa coisa das “carreiras”, sejam iguais a vós próprios, com frontalidade, liberdade e verdade, e limitem-se apenas a praticar bem, porque se o fizerem subirão ao ponto mais alto da carreira – ser médico de verdade.

Evitem o erro a todo o custo, vivam mal com ele, batam com a cabeça na parede devido a ele, mas não o ignorem, não o encubram, enfrentem-no e aprendam com ele, pois só assim podem melhorar. Verão que nas falhas se descobrem oportunidades para vencer, e cada vez que vences alguém ganha com isso.

Preservar a vida, restituir a vida ou a qualidade de bem viver, serão as vossas principais metas, mas para serem bem-sucedidos, têm de aceitar a morte e sobretudo dar-lhe dignidade.
Acreditem que não nasceram para ter vitórias, mas sempre que saírem derrotados, observem a derrota e recomecem a partir daí.

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