AS HIPOCRISIAS DO SISTEMA

por MARIA DO CÉU MARTINS
Economista

Chegou Setembro e com ele a escola! E como tudo o que implica alteração de rotinas, inicia-se uma azáfama de tarefas e de ajustamentos, para cá e para lá, até que o calendário e a organização familiar vá tomando forma e se instale de novo.

E tudo isto até seria bom, e muito saudável, se ano após ano as mudanças no ensino não correspondessem a verdadeiras alterações estruturais que, porque são implementadas em ciclos muito curtos, nunca se percebe o seu verdadeiro impacto. Tenho para mim que mais valia uma reforma menos boa mas que durasse pelo menos uma década – um pacto de regime, de que se fala, mas sobre o qual ninguém se compromete.

Este ano, no primeiro ciclo, os livros são gratuitos para todos. Medida absolutamente desconcertante que encerra uma bondade democrática de que não havia memória. Mesmo para quem não quer – e eu não queria – são grátis.

E esta ausência de possibilidade de escolha cheira a ditadura de Leste – os meninos acrescentam agora, aos stresses habituais, a impossibilidade de escreverem nos livros (mesmo que esteja previsto, como é o caso do inglês….) ou de dobrarem as folhas porque não podem estragá-los. Um deslumbramento tolo de esquerda. Um rio de dinheiro que seria muitíssimo mais bem gasto a diminuir o número de alunos por turma ou a contratar mais e melhores auxiliares.

Mas não é tudo!

Quando li um horário que me colocaram na frente, vislumbrei no meio das AEC – atividades de enriquecimento curricular (que agora só é uma, ou uma e meia..) uma sigla que por muito que me esforçasse não conseguia compreender – TPB. Hesitei, naturalmente, entre fazer papel de ignorante ou ficar esclarecida de vez, e lá pedi a explicação.

Com a resposta melhorei o meu estado de perplexidade – TPB significa “Tempo Para Brincar”!

Brincar com quem e aonde? Na escola, com supervisão de auxiliares a rebentar pelas costuras? Na escola, com poucas ou nenhumas infraestruturas de apoio onde proíbem a entrada de bolas? No ATL do sitio que só abre às 17.30h? Ou será que alguém acredita que os pais estão disponíveis para brincar com os meninos a partir das 15.20h da tarde? Sim, porque, por coincidência ou não, o TPB é quase sempre o último tempo do dia.

Neste momento, estarão a esfregar as mãos de contentes os gestores dos centros de estudo, numa atitude de reprovável sentido de oportunidade, não fora o facto de todos eles se alimentarem de muitos e muitos profissionais de ensino que não podendo ficar dentro, ficam de fora, e aceitam contratos de “miséria” em situações de precaridade avassaladora. Gente com elevado sentido de responsabilidade que desta forma garante o salário possível que lhes permite manter a sua, igualmente nobre, posição de chefes de família. Renovando a esperança de no próximo ano letivo ver reconhecida a sua verdadeira competência como profissionais de ensino – por dentro do sistema, universal e gratuito, para quem quiser e até onde quiser.

 

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