CACIQUE, CLIENTE E O POLÍTICO DE VERDADE.

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Lá mais para o final do teremos eleições autárquicas. Isso quer dizer que, por estes dias, se vão alinhando as lógicas internas de escolha dos candidatos partidários. Escolhas, não será bem. Partidos com possibilidades de acesso ao poder terão um amplo mercado de escolhas enquanto partidos a quem geralmente os eleitores não encontram a lógica do poder debatem-se com grandes dificuldades para preencher listas. Num e noutro caso há muitos candidatos que apenas são nomes ocupando linhas. O objetivo é, tão só, encher para dizer que se existe. Teremos assim muitos “políticos” sem vontade de o serem que, em alguns casos, aparecerão enchidos de vaidade mas, na verdade sabendo não possuir nem qualidade nem temperança necessária.

Os partidos sem poder, ou sem acesso ao poder há demasiado tempo, tendem a perder militantes na justa medida em que estes, não vislumbrando possibilidades de experimentarem os seus benefícios, se vão à procura de outros interesses. Dá-se, assim, uma dificuldade cíclica no recrutamento demonstradora de que os motivos de base na escolha do partido político encontram-se, atualmente, mais na vertente económica e menos – talvez nada – em matéria de recortes ideológicos.

Os partidos habitantes do poder não apresentam problemas de militância, pelo contrário. E porque é preciso atender a muita gente, quanto mais poder o partido tem, mais fechado se torna. Nesse processo, a certa altura, o partido já não vislumbra para fora e o mundo – todo o mundo – se resume ao seu interior. Dá-se assim aqui o processo que está na base do afastamento dos partidos do que vulgarmente se designa por sociedade civil – e não o contrário como se amiúde é afirmado. Quando as escolhas são feitas nessa clausura, o resultado é o aparecimento de candidatos à volta de profissionais da política, mesmo da pequena política.

De uma ou outra forma, esta maneira de produzir o campo político decorre de uma associação entre patrões e clientes em que uns poucos se ajustam como donos do poder e uns tantos se localizam como seus servidores. Funda-se, aqui, uma relação em que ao longo dos concelhos alguns pequenos “fazedores” constituídos em caciques são legitimados por “uns sacos de votos” esperançosos no acesso a umas migalhas do poder. Ao jeito das relações económicas, esta lógica faz dos partidos e das eleições uma espécie de Sociedade Gestoras de Participações Sociais (SGPS) para quem a eleição não passa da atribuição do direito de propriedade da coisa pública e cujos lucros, em forma de poder, são distribuídos entre uns poucos que, por sua vez, alimentam “os seus sacos de votos”.

Ao fim de quarenta anos de democracia já todos perceberam que há aqui um problema. Assobiar para o ar fazendo de conta, não é, seguramente, solução. A urgência no tratamento desta relação patrão-cliente, instituída e impregnada em Portugal, devia merecer uma solução. A única vislumbrada é obrigar os partidos políticos a evoluírem no sentido de “destruição” da lógica do cacique e do cliente. Tal, passa pela instituição de abertura cíclicas dos partidos a todos os cidadãos que queiram participar na escolha dos seus candidatos, processo geralmente conhecido por primárias.

Na Grécia antiga era suposto um político ter “parresía”, ato pela qual se distinguiam aqueles que estavam possuídos da “fala franca” traduzida no uso desassombrado da palavra e na ação sem medo das consequências. A esse tipo de político dizia-se estar perante um “político de verdade”.

Esser Jorge Silva

Destaque:

(…) esta lógica faz dos partidos e das eleições uma espécie de SGPS para quem a eleição não passa da atribuição do direito de propriedade da coisa pública e cujos lucros, em forma de poder, são distribuídos entre uns poucos (…)   

 

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