CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

por MÁRIO LUIZ SANTOS

 

Enfermeiro

Caro Senhor Presidente da República Portuguesa

Sr. Presidente, os enfermeiros atravessam neste momento um processo muito complicado principalmente no que diz respeito à sua carreira, havendo, no entanto, outras matérias laborais em discussão, assuntos sobejamente divulgados pelos media nos últimos dias, após uma greve inédita de cinco dias que parou muitos serviços de saúde.

 

Quero apenas focar alguns aspectos que elevam esta profissão à mais digna das profissões. A enfermagem  é uma profissão autónoma tutelada por uma Ordem criada em 21 de Abril de 1998 e que trabalha de forma interdisciplinar com as demais carreiras do sector da saúde. Esta interdisciplinaridade faz com que os enfermeiros assumam uma infinidade de funções sem as quais todo o processo de acompanhamento/tratamento do doente não teria sucesso.  Em suma, acompanhamos durante as vinte e quatro horas o doente. Cuidamos, escutamos, falamos, acarinhamos, tocamos, criamos empatia, ensinamos as famílias quando o doente precisa dos cuidados em casa…tanta coisa, e acreditem que fazemos por amor. Fomos formados com todos esses ensinamentos.

 

Quando em 1998 a Ordem dos Enfermeiros foi criada, num Governo que tinha como Ministra da Saúde a Dr.ª Maria de Belém Roseira, a mesma reconheceu que, os «enfermeiros constituem, actualmente, uma comunidade profissional e científica da maior relevância no funcionamento do sistema de saúde e na garantia do acesso da população a cuidados de saúde de qualidade, em especial em cuidados de Enfermagem»

 

Missão, dedicação, entrega, paixão, qualquer adjectivo se pode adequar a esta nobre profissão. O enfermeiro assume uma infinidade de papéis/funções para as quais foi preparado e, Sr. Presidente, muito bem preparado, com uma LICENCIATURA reconhecida nos quatro cantos do mundo (bem hajam os nossos docentes).

 

Os enfermeiros possuem, no entanto, um grande defeito, o porreirismo – isto é, fazem de tudo ou quase tudo para o que são solicitados, e acreditem fazem porque o que querem é que nada falte ao doente. Talvez por isso a profissão não seja valorizada como outras que são mais específicas nas suas funções. Poderia dar exemplos de outras carreiras dentro da área da saúde, mas quem percorre os vários serviços hospitalares facilmente constata tal situação.

 

A pergunta impõe-se: A enfermagem cansou de quê afinal???

 

Cansou da falta de condições de trabalho;

cansou da falta de enfermeiros em número suficiente nas enfermeiras (as chamadas dotações seguras);

cansou de trabalhar dias seguidos sem folgas em substituição de colegas que cada vez mais faltam por exaustão;

cansou de não serem reconhecidos como licenciados;

cansou de não ter uma carreira digna e com progressões com a perspectiva natural de atingir o topo da carreira;

cansou de trabalhar noites, fins-de-semana, feríados e datas festivas sem o pagamento das horas de qualidade a 100% (já é muito penoso estar ausente da famíla a amigos!!!);

cansou de trabalhar horas extraordinárias sem que lhes seja pago. Tudo isto e muito mais com a conivência, por vezes, das direcções de enfermagem, que deviam ser o nosso principal bastião de defesa.

 

Eu, tal como milhares de enfermeiros em todo o país paramos 5 dias. Estive no Porto e em Lisboa em manisfestação a protestar para que Portugal inteiro compreenda de uma vez por todas que esta profissão também precisa de quem cuide dela.

O SNS se hoje apresenta cuidados de excelência e é por todos reconhecido, muito deve à bravura desta classe!!!

Sr. Presidente não posso compreender o seu silêncio, pois também olhamos para si como o nosso principal bastião na defesa dos direitos, da justiça, do respeito, da dignidade, da equidade.

Este grito de revolta estava à muitos anos calado, no entanto, esta classe com cerca de 70 000 profissionais saiu às ruas para serem ouvidos, para que se faça justiça!!!

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