CONCERTOS DE FUTEBOL

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Por estes dias dizem-se cobras e lagartos de umas bestas-quadradas que se afirmam “comentadores de futebol” mas que, na verdade, nada mais são do que coveiros de um espetáculo extraordinário, pese embora o apertar de nariz de alguma elite de salão. São-nos ao mesmo tempo que uns milhares de telespetadores, iguais a esses peroradores, lhes dão vida. Gente para quem um jogo de futebol é menos o que se joga no campo e mais a pestilência que lhes sai da boca. O futebol é um jogo com uma história extraordinária que nasceu para ocupar o espaço desocupado de trabalho dos operários em Inglaterra. O seu aparecimento coincide com a decadência do boxe enquanto ocupação de fim-de-semana. Está assim claro que o jogo de futebol ensinou o controlo de excitação não só dos seus executantes como aos seus espetadores.

Um jogador tem de usar a força até ao limite de não prejudicar a sua equipa. Se usar menos força cede ao adversário. Se usar força a mais comete penalidades. Todo o jogador o sabe: há uma força limite, uma fronteira que não se pode transgredir. Ora, este ponto de civilidade responde àqueles que vêm num jogo de futebol uma batalha. Curiosamente os bárbaros “palradores”, assassinos da palavra, são, neste caso, promovidos pela televisão. O paradoxal é que é essa mesma televisão que, fruto da apropriação que fez do jogo, que impôs transformações nos estádios, tendentes a transformá-los em espaços de lazer, preferencialmente, de famílias. O princípio é sempre o aumento de condições civilizacionais.

A cadeira individual é um desses dispositivos. Não só serve para desfazer a ideia de multidão como também impõe o agachar, forma fácil de colocar o corpo em estado adocicado. Como a cadeira também provoca o estaticismo, os grupos de animação denominados de “claques” não as apreciam. Esse é o motivo porque existe a tendência para se avaliar as claque de forma negativa. Mas o que está a suceder atualmente no Estádio do Vitória é merecedor de uma atenção redobrada. Suspeita-se que as claques do Vitória descobriram na música a sua razão de ser.

Começam a cantar ainda os jogadores não entraram em campo. A seguir entregam todo o fôlego com o novel hino composto com base na música “Sailing” do grupo “The Sutherland Brothers” popularizada por Rod Stewart. Os cachecóis levantam-se e com eles todo o estádio. E canta-se, “ó Vitória, ó Vitória”. Percebe-se que há ali um pouco do imaginário de “You’re Never Walk Alone” de Gerry & The Pacemakers, tornado hino do Liverpool – mais tarde adotado também pelo Borússia Dortmund. Porquê a coincidência? Saiba-se que Liverpool é um club-cidade formado a partir da classe operária e que encontrou no futebol o ponto de união. Operário é uma expressão que provém de ópera. Tudo a ver com o jeito para a música.

A partir desse novo hino que a claque toma as rédeas da animação. Uns tantos, espalhados ao longo da parte inferior da bancada sul, destacam-se porque se elevam em relação aos restantes. Estão virados de costas para o jogo, tal e qual qualquer maestro dirigindo uma ópera. Usam os braços como batutas. À sua frente uma mole humana de jovens segue o compasso mais interessados na performance e na produção de um efeito cénico do que com a performance do jogo em si. Ao contrário do que se pensa, nesse grupo de adeptos estão quase todos os estatutos juvenis vimaranenses.

É com melodia, uma espécie de banda sonora, que o jogo decorre. E, se por vezes, na cadência do jogo jogado no relvado, os jogadores fazem circular a bola assim recompondo o fôlego para novas investidas, a verdade é que os cânticos não param. As cantorias circulam sempre. Por vezes são convocados cantares ao desafio. Quando os braços das claques apontam, a bancada responde à convocatória. O mote é dado através da onomatopaica mais conhecida da música: Ao lalalalala soa o uníssono “Vitória” da bancada. E segue seguindo a mesma ordem, “lalalalala”, “tão grande”, “lalalalala”, te amo, lalalalala “equipa da minha vida”. E, apontando para outra bancada, segue a cantoria.

Quem ali está assistindo ao espetáculo percebe que num estádio não há um só espetáculo. Por isso, as bestas faladoras da televisão que estragam o futebol deviam por os olhos no que de belo tem uma partida. No dia em que o fizerem sairão espantados com a sua ignorância.

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