DEDICATÓRIA

por MARIA DO CÉU MARTINS
Economista

A minha mãe foi a enterrar na véspera de Natal. Morreu na altura do ano em que se celebra o Nascimento. Ou talvez não! Não me lembro quando, mas tinha partido alguns anos antes. Devagar, devagarinho, foi deslizando para um mundo só dela onde cada um de nós só conseguia entrar numa pequena réstia do dia.

E nesse mundo as construções eram deliberadamente só dela. Não havia horas de dormir nem de acordar, não havia refeições nem cuidados de higiene e as rotinas só existiam naquela expressão sem contexto que nos fazia no ralhete de outrora. Nunca tive tantas saudades dela como nesse tempo. Eu tinha-me atrasado e os meus filhos perderam a história da Branca de Neve que tinha um castelo muito mais fantástico do que o da Disney.

No Dia da Mãe bateu-me uma nostalgia e comprei flores para lhe levar. Fui até ao cemitério e rezei! Rezei muito mas não a encontrei na minha oração – ela não estava lá. Quando entrei no carro acariciou –me o cabelo,  sussurrou-me ao ouvido e foi comigo até casa. Desceu pelos meus olhos, sentou-se ao meu lado e contou-me histórias de antigamente. Nunca tinha ido à escola porque era mulher e porque os avós a tinham escondido na vergonha de um amor infiel de uma filha que não soube esperar pelo marido que não voltou. Mas contava números e histórias como ninguém.

Desde esse dia visita-me regularmente. Ajuda-me a cozinhar e arrumar a casa. Endireita-me o talher na mesa e dobra-me o guardanapo. Escolhe o melhor sol da manhã para corar a roupa e recolhe-a antes que a chuva chegue. Cita o provérbio da ordem quando a paciência se me esgota e ajoelha-se junto à cama dos meus filhos para os ver adormecer.

E este ano levou-me, de novo, à procissão de velas! Deu-me a mão e cantou emocionada a chegada de Maria.

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