E SE PEDÍSSEMOS MAIS POLÍTICA NA ÉTICA (EM VEZ DE MAIS ÉTICA NA POLÍTICA)?

por Esser Jorge Silva

Tanto na forma como no conteúdo, assiste-se hoje a quadros “jornalísticos” surpreendentes que, dia após dia, liquidam as bases de uma das mais sublimes e honrosas profissões. Uma tarde num café com a CMTV ligada é um exercício de masoquismo sobre masoquistas em ação. E, ao pagar a conta, lá temos a dona do café, tomada pelo masoquismo, atirando-nos aquele “ninguém sabe para onde vai este mundo, cada vez pior”. Não está. É, de todo, errado afirmar que o mundo de hoje é pior. Por muita perceção crítica a dominar as mentes, o mundo é hoje, inegavelmente, melhor do que fora no passado. E bastava à senhora do café mudar para um canal de música clássica, para chegar a tal conclusão.

Ora porque se está a dar esta liquidação do jornalismo? Por uma razão simples: o jornalismo tornou-se um campo de submissão. A sua viagem enquanto vigia da sociedade foi, a certa altura, trocada por uma estadia num porto que, ora justifica o poder, ora serve-se do poder para aparecer a construir narrativas sem factos. E, na essência, este é o problema verdadeiro: vivemos o tempo do jornalismo pós-facto.

Há uns tempos participei num congresso sobre média e literacia. O tema do congresso é de saudar, claro. Havia muita gente a participar, muitos grupos de trabalho, muitas mesas de apresentação de trabalhos, muitas discussões, muitos debates. Assisti a catorze apresentações de trabalhos em várias dimensões. Pois, praticamente em todos esses trabalhos académicos aparecia a mesma definição do que queria dizer “literacia dos média” e essa definição era, tão só, da Comunidade Europeia. Um caso de obediência que não augura nada de bom a quem deve pautar-se por cientificidade.

Tomemos José Bastos, vereador da cultura, como um exemplo vítima do jornalismo assente na perceção do leitor. Bastos é acusado pelo Jornal de Notícias de, num caso, beneficiar através de uma contratação camarária, uma empresa que, por sua vez subcontratara um seu filho e, no outro caso, de parecer (vinco o parecer) juiz em causa própria num caso concursal da Câmara de Guimarães em que concorre a sua esposa, funcionária da Câmara há 27 anos. Através do jornalismo pós facto, é possível promover-se a insinuação, colorida com a aparência de dados a despropósito e adjetivação forte, assim criando um quadro no qual o pós-facto dá lugar à uma espécie de pós-verdade, de onde o que menos interessa é a verdade. Resultado: toma lá vereador que és culpado de qualquer coisa, não importa o quê.

Uma das questões invocadas e que dá lastro ao pós-facto é uma certa propensão para apelar à ética. Estou em crer que ética é expressão política de todo o partido na oposição. E, por ter existência exclusiva no comportamento, a sua mensuração segue sempre o seu estado existencial deficitário. Mas, juro, ando cheio de escutar a palavra ética de forma vã. Porquê? Por uma razão simples: não se ouve ninguém a apelar a mais política na ética, nem mais economia na ética. A ética é constantemente verberada de forma rica mas sempre invocando a pobreza da sua prática.

Ética e política são campos separados de estudo. Ética é do campo comportamental e a política do campo da ação. Uma e outra não são irreconciliáveis mas há sempre que perguntar se a política, por ser a arte do negócio em favor do bem comum, não se sobrepõe ao que se apresenta como “a ética” – o que impõe perguntar, “a ética de quem?”.

Recentemente saiu um livro de Daniel Innerarity. É altamente recomendável. Tem o título “A Política em Tempos de Indignação”. É um ensaio sobre como estamos, definitivamente, a matar a política. Recomendo-o. Porque há que saber o que vem na pós-política.

 

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