É SEMPRE POSSÍVEL NÃO OLHAR… MAS NÃO CONSIGO

por ANA AMÉLIA GUIMARÃES
Professora

  1. A propósito das lutas em França e dos estivadores em Portugal, em conversa animada com amigos, discutia-se a legitimidade do direito à greve. Havia o consenso de que o direito à greve era legítimo e que deve ser constitucionalmente protegido. No entanto há entendimentos diferentes sobre quem a pode fazer. O argumento, basicamente, era o de que quem ganha muito(?) não tem direito a fazer greve. Este argumento censitário era depois sublinhado com o exemplo dos “nossos trabalhadores têxteis” que, ganhando 530€, vivem numa situação de precariedade laboral (traduzindo: o seu posto de trabalho depende da boa vontade do patrão, devendo por isso o trabalhador meter a viola ao saco, não protestar, aceitar, dar-se por contente, não se meter em política, muito menos com sindicatos) que não lhes permite fazer greve. Ora isto revela, no mínimo, duas conclusões preocupantes, a primeira é que o direito à greve “é igual para todos, mas há uns que são mais iguais que outros”, no limite, e seguindo este raciocínio, os governos podiam fazer aprovar uma tabela sobre profissões que estariam impedidas de protesto, baseando-se a proibição na comparação de tabelas salariais entre os cidadãos da república. Deste argumento se retira também que o recurso à greve se faz apenas e só para aumentar salários, o que sendo legítimo (o salário é o sustento, a vida material depende dele) é grosseiramente redutor, a maior parte das greves, nos últimos anos, fizeram-se para manter postos de trabalho ou para pagamento de salários em atraso ou ainda para estancar as limitações de direitos, a suor e sangue, adquiridos. Uma segunda conclusão é que, em Portugal, não há democracia política, uma vez que milhares de trabalhadores, devido à sua situação contratual (ou ausência dela), não podem exercer o seu direito à greve. Parafraseando o presidente da república “é legal, mas não podes fazer”. Creio que este pântano ideológico é preocupante. A via única do neoliberalismo recesso de Thatcher e Reagan, que semeia ventos de pobreza e tensões sociais por onde passa e se instala, gera este tipo de anomia cívica: viver e aceitar uma democracia limitada… o regresso cabisbaixo e resignado do “antes no talho que na farmácia, antes na farmácia que no cangalheiro”.
  2. Tendo a possibilidade de o fazer, aproveito esta oportunidade de escrever no +guimarães para chamar a vossa atenção para duas exposições que podem ver em Guimarães, fora dos circuitos mais oficiosos: “Almoço de trabalhadores” da dupla João Brojo e Felícia Teixeira, na galeria/ateliê “O sol aceita a pele para ficar”, rua da Caldeiroa (Travessa da Madroa), Guimarães e “É sempre possível não olhar”, de Joana Paradinha, no novo espaço do Laboratório das Artes, na rua Gravador Molarinho.

Já agora estejam atentos à programação da Revolve (promoção musical) que tem desenvolvido um trabalho notável, sobretudo na divulgação e apresentação do que de melhor há de bandas emergentes. Nos dias 13, 20 e 21 estiveram, no CAAA, bandas/músicos como os britânicos Blood Sport ou os portugueses Alforjs. Pessoalmente permitam-me destacar o concerto de Larry Gus (Grécia) pela sua criatividade e originalidade musical que veio mostrar, como o próprio ironicamente disse, que não é preciso estar em Nova York ou Berlim para passar um bom momento.

*Do título da exposição de Joana Paradinha, no espaço do Laboratório das Artes.

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