EDUARDO RIBEIRO, IN MEMORIAM

por CÉSAR MACHADO
Advogado

“Voltando à campanha de Humberto Delgado, tenho consciência que esse terá sido o momento em que conquistei o respeito de muitos correligionários meus. Vim a pertencer ao grupo dos democratas de Braga, cujas principais figuras seriam o Santos Simões, o Lino Lima, o Armando Bacelar, o Humberto Soeiro e eu próprio.”  (…) “Toda a gente daquelas gerações de antifascistas tinha uma enorme admiração por este grupo. A liderança de Santos Simões era indiscutível”, recorda Eduardo Ribeiro, em discurso directo, em  “Guimarães, Daqui Houve Resistência”.

Após seis ou sete dias submetido a tortura do sono foi levado para Caxias, onde ficou mais vinte e dois dias, diz a dado passo.

“Fiquei no isolamento, o que é dramático. Mas ainda me deu para fazer lá um projecto. Tinha uma lapiseira que ficou esquecida num bolso, pedi papel e ainda fiz o projecto para o Santos Simões para a casa que ele mandou construir na Apúlia. Eu conhecia o terreno, fiz o projecto à escala e com cotas. Pus lá a indicação a lápis” Residência de Santos Simões”.

“Manter um ar de firmeza era importante. Aliás, nas fotos feitas aos presos há sempre um ar de determinação, quase desafio, ninguém está com ar abatido. Nunca mostrar ar abatido era o que todos pensávamos naqueles momentos. Por acaso não conheço as fotografias que me fizeram na prisão, nunca as vi, nunca calhou.”:

“Em 1967, dá-se a criação da LUAR sob a direcção do Hermínio da Palma Inácio. O meu irmão José Casimiro aderiu à LUAR. Recordo-me que estava numa reunião em Famalicão, no escritório do Lino Lima, uma reunião habitual. Naquele tempo, havia uma grande curiosidade por ouvir os noticiários, ver o que havia de novo. Estávamos a ouvir as notícias e dizem que tinham sido presos vários militantes da LUAR, em Lisboa. Quando o jornalista começa a citar os nomes, aparece o do José Casimiro Ribeiro. Nós olhamos uns para os outros, o Lino Lima perguntou: este nome é de alguém conhecido, não é? E eu respondi: é meu irmão”.

“Quando recordo aquele 1º de Maio de 1974, vejo uma coisa espantosa. A festa, a felicidade, a energia. Nunca mais se viu tanta felicidade no rosto das pessoas, nunca mais vi qualquer coisa semelhante àquilo, nem algo que se parecesse. Quando vejo na TV aquelas imagens do 25 de Abril dá-me saúde. Revigora-me. Valeu a pena a nossa luta. Valeu a pena.”.

“Desde 1944, foram presos 52 cidadãos vimaranenses, de todas as profissões, acusados de crimes contra a segurança do Estado. Alguns foram julgados nos Tribunais Plenários e condenados a penas que cumpriram, outros mantiveram-se presos sem culpa formada durante o tempo que a PIDE quis”.

“È necessário nunca esquecer estas lutas que outros travaram. Em Guimarães houve muitos que lutaram, que sofreram e continuaram lutando, sem nunca desistir. E há uma coisa que eu posso testemunhar relativamente a GUIMARÃES – DAQUI HOUVE RESISTÊNCIA”.

Excertos do depoimento de Eduardo Ribeiro em GUIMARÃES, DAQUI HOUVE RESISTÊNCIA, recolha e organização de textos de César Machado, 2014, Edição do Cineclube de Guimarães, onde a dado passo se diz que A vitória do esquecimento é a derrota da liberdade. Homens como Eduardo Ribeiro, que lutaram como lutaram por um país sem o céu cercado por arame farpado,  não nos deixam porque nós não deixamos. Quem não tem memória não pode testemunhar, e nós queremos testemunhar, como também se diz em Guimarães, Daqui Houve Resistência.

 

 

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