ESTOU BURNOUT

por PAULO NOVAIS
Professor de Inteligência Artificial

Na medicina caracteriza-se o Burnout, mais em particularmente a Síndrome de Burnout ou ainda Síndrome do Esgotamento Profissional, como um tipo de esgotamento físico e mental associado à atividade profissional. Podemos caracterizá-lo como sendo um estado de exaustão física, emocional e/ou mental que emerge da acumulação de stress, normalmente, em contextos de trabalho, manifestando-se (geralmente) em profissionais que têm que lidar sistematicamente com a pressão e a responsabilidade. O Burnout ocorre em geral como resultado de um período de esforço (exagerado) no trabalho, e é marcado por hiatos de recuperação insuficientes.

Podendo-se manifestar como um cansaço físico e mental constante, em dificuldades em se concentrar no trabalho, alterações súbitas de humor, um certo negativismo em tudo que se faz e pensa, afastamento em relação aos outros e uma falta de vontade em participar em atividades, entre outras coisas.

Pois, eu me declaro em estado de Burnout!

Pessoa (Álvaro de Campos) diria “O que há em mim é sobretudo cansaço… Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.”.

Mas de facto, estamos constantemente a ler nos jornais, ver nos telejornais e em programas afins, sempre as mesmas notícias, sempre as mesmas intrigas, sempre os mesmos jogos, os mesmos combates, que não dão em nada nem acrescentam nada de positivo e útil. Podem alternar as temáticas abordadas, mudar (algumas vezes) os personagens mas no fim tudo se resume sempre a uma mão cheia de nada. Somos inundados de irrelevâncias e de pequenez, tudo tem de ser ligeiro sem substrato. O denominador comum é a insignificância ou como diria Milan Kundera vivemos a “Festa da Insignificância”.

Kundera aborda nessa obra a contemporaneidade colocando em destaque o que nela é mesquinho, banal, vazio, frívolo e ridículo. Destacando a insignificância das existências, do que se faz, do que se pensa e do que se aprecia (idolatramos).

A sociedade e naturalmente o nosso dia-a-dia estão hoje devotados a um certo gosto pela banalidade. Não importa mais o que fazemos nem como o fazemos, pode ser até algo ridiculamente insignificante mas se permitir uma selfie e der direito a likes nas redes sociais, “Está tudo bem!” O objetivo de algo deixou de ser o algo em si, passou a ser a sua publicitação e a natural visibilidade que daí pode emergir.

Este mundo pós-moderno, do século XXI, reduz e, de algum modo, uniformizou a cultura, as relações e a vivência em sociedade a um limiar de superficialidade constrangedor. Naturalmente, a política reflete também esta realidade. Não há mais a política do combate das grandes ideias e das ideologias, mas sim um combate pela visibilidade, i.e., o combate para captar a atenção dos meios de comunicação, não pelo combate em si, mas pelo barulho que o rodeia pelas banalidades e mediocridades que lhe estão associadas.

Carlo Strenger (entre outros) de algum modo considera que o culpado de tudo isto é o politicamente correto, porque se criou a ideia que não existe o verdadeiro nem a falsidade. Esta visão que tudo tem de ser neutro e obedecendo as normas e as regras pré-estabelecidas conduz-nos a uma letargia de ideias e ao marasmo.

Talvez esteja certo, mas tenho para mim que o conhecimento e o confronto de ideias, ainda é a melhor cura para muitas destas doenças, até porque como Pessoa dizia “de sonhar ninguém se cansa…”.

Oxalá ele esteja certo!

 

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