FÁBRICA DO CAVALINHO

O Palácio Vila Flor, juntamente com o centro cultural e os jardins, ofusca o cenário em redor perto do topo da Avenida D. Afonso Henriques, mas o outro lado da rua guarda um outro tipo de memórias da cidade, gravadas pelo movimento dos braços e pela rotação das máquinas a entrelaçar o fio. A Fábrica do Cavalinho, empregadora de 900 pessoas no “auge”, jaz abandonada, com vidros quebrados e paredes apodrecidas. Um dos antigos trabalhadores falou ao Mais Guimarães sobre os processos que conduziram ao encerramento da fábrica.

A Fábrica de Fiação e Tecelagem do Cavalinho encerrou em 1993. A fibra não mais se fez fio, o martelar dos teares abrandou e o fluxo de entradas e saídas não só de produtos, mas também de pessoas estagnou.

“Começou a ficar mal gerido e a alimentar outros negócios para além dos da fábrica. O patrão começou a perder crédito”, avançou Fernando Pires, trabalhador que ingressou na empresa em 1966 e lá trabalhou até ao fim.

A fábrica têxtil surgiu em 1923 como fruto da criação da Sociedade Mercantil do Minho, que se instalou na Rua Paio Galvão, na residência de Alberto Vieira Braga, vimaranense que se distinguiu como etnógrafo e dirigiu a Sociedade Martins Sarmento na década de 20, e era gerida por José da Silva Gonçalves.

Um requerimento datado de 30 de abril desse ano, guardado no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, exprimiu à Câmara Municipal de Guimarães a intenção da nova entidade em “construir uma fábrica de tecelagem no lugar do Cavalinho, da freguesia de Santo Estêvão de Urgeses”, e a autarquia concedeu o alvará para a construção a 14 de maio, abrindo portas à instalação de mais uma unidade têxtil num território onde a indústria já florescia.

O projeto inicial contemplou a instalação de dez teares de 36 pregos e de outros dez de 46, além de compartimentos com tinturaria e urdideira. A unidade industrial modernizou-se gradualmente, com a instalação da fiação, ampliações do espaço e aquisição de novas máquinas.

O antigo trabalhador na secção de desenho lembrou que a fábrica chegou ao “auge” já “depois do 25 de abril”, na década de 80, quando empregou cerca de 900 pessoas e renovou-se novamente com uma licença emitida pelo município em outubro de 1983 para se demolir um dos antigos pavilhões, com cerca de três mil metros quadrados, e construir em seu lugar um de betão armado com três pisos a ocuparem toda a área disponível e um quarto, de 500 metros quadrados, para serviços administrativos, contabilísticos e comerciais.

Fernando Pires esclareceu que, por essa altura, surgiu outro projeto que viria a contribuir para a quebra da empresa. Os responsáveis quiseram dotar um dos pavilhões “à face da estrada” com alicerces capazes de “suportar prédios”, mas a “autorização para colocar apartamentos em cima da fábrica” nunca surgiu e a obra “ficou muito cara”, originando dívidas incapazes de serem pagas.

“Tinha alicerces muito grandes para levar com muito peso em cima e ficou mais dispendioso. Aplicaram ali muito dinheiro. Eles nunca conseguiram pagar o investimento que fizeram. Ficaram sempre com dívidas”, Fernando Pires, antigo trabalhador, sobre o projeto que previa a construção de prédios por cima da fábrica.

Outro dos problemas que desencadeou a falência da empresa, contou o antigo trabalhador, foi a compra de “teares e outros maquinismos” que não eram “topo de gama” para substituir os meios de produção antigos, o que criou uma situação de “desvantagem em relação a outras empresas”.

O encerramento da fábrica originou um processo de rescisão de contratos, que se transformou, depois, num processo judicial entre os trabalhadores, apoiados pela União de Sindicatos de Braga (USB), que procuravam receber os créditos relativos à falência da empresa e, nalguns casos, também a salários em atraso, e a Segurança Social, que pretendia impedir a atribuição da totalidade das indemnizações aos trabalhadores.

A decisão de primeira instância, tomada em 1996, favoreceu os trabalhadores, com o Supremo Tribunal de Justiça a confirmar essa decisão a 03 de março de 1998, o que permitiria, segundo a USB, que outras indemnizações devidas fossem “efetivamente pagas aos trabalhadores em vez de serem ilegalmente atribuídas ao Estado”.

Fernando Pires foi um dos trabalhadores que rescindiu o contrato, e como intercedeu junto do sindicato, recebeu um valor superior a mil euros, num processo que “demorou entre oito a nove anos”.

A resolução definitiva do conflito surgiu apenas a 15 de março de 2004, quando o Sindicato Têxtil do Minho e Trás-os-Montes começou a entregar as indemnizações devidas às mais de três centenas de antigos funcionários. O Diário do Minho noticiou, na edição do dia seguinte, que as indemnizações ascenderam aos 2,25 milhões de euros, valor correspondente a 92,8% do total.

Os salões e as paredes que testemunharam a vida laboral de centenas de vimaranenses continuam, porém, num impasse. Surgiram já alguns projetos de arquitetura para reabilitar o edifício, mas o regresso à vida da antiga fábrica têxtil continua longe do horizonte.

“Às vezes, quando passo lá, olho para aquilo e até mete pena ver latas de drogados encostadas à fábrica, vidros partidos, criação de pombas no interior”, confessou Fernando Pires.

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