IDIOTICE ELEVADA AO NÍVEL DA ESTUPEFAÇÃO

por PAULO NOVAIS
Professor de Inteligência Artificial

A idiotice é a característica de quem é idiota, no fundo é um comportamento, modo de agir ou em muitos casos o discurso de quem o é considerado. Ao conceito de idiota não irei aqui regressar (já o fiz em crónica passada), no entanto, recordo que na maioria dos casos é caracterizado por ter associado algum grau de estupidez.

Aliás a este propósito Benjamim Franklin (século XVIII) referia que era falta de educação calar um idiota mas uma crueldade deixá-lo prosseguir.

A construção europeia e a sua recente história estão mescladas de muitas afirmações, discursos e decisões a roçar a idiotice, com um grau elevado de estupidez. As recentes declarações de Jeroen Dijsselbloem, ministro das Finanças holandês e presidente do Eurogrupo, não são mais de que um bom exemplo de uma Idiotice elevada ao nível da estupefação. Sim, eu elevo-a ao nível da estupefação porque ele insere em si mesma todo um conjunto de considerações sobre os Europeus do Sul e sobre a própria Europa que gostaria de partilhar. Recordo que o Dijsselbloem afirmou ou, se preferirem, acusou os europeus do Sul de gastarem o dinheiro em “copos e mulheres”.

Afirmação em si infere de algumas curiosidades, vinda de um cidadão de um país caracterizado pela elevada tolerância e capacidade de inclusão é de facto muito sectária e discriminatória, logo, porque se esquece que nós também gastamos dinheiro com o futebol. Para além de ser algo discriminatória em relação às mulheres, em relação aos copos como ele não menciona (diretamente) que tipos de copos (se grandes ou pequenos) nem associa a uma qualquer bebida, irei deixar passar essa parte. Só lhe recordaria que alguém uma vez disse que beber um copo de vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, i.e., movimenta a economia. Para alguém que é formado em Economia (Agrícola) e com um suposto mestrado em coisa nenhuma, é de facto alguma ignorância. Talvez preferisse que a malta gastasse o nosso dinheirinho em tulipas? Sendo de facto uma flor muito bonita e que pode ser muito interessante para começo de conversa, mas não há nada que substitua um copo (acrescento do bom e já agora vinho verde da Adega Cooperativa de Guimarães) para aprofundar uma conversa e uma bela amizade.

A verdade (deixemo-nos de tretas) é que a afirmação contém em si o velho e muito enraizado estereótipo que em algumas zonas se trabalha e noutras se pratica a preguiça. No fundo retoma a velha fábula da cigarra e da formiga (aproveito e recomendo aqui a leitura das fábulas de Jean de La Fontaine (século XVII) que são ainda muito atuais). Esta ideia não é nova e tem sido replicada em muitos ocasiões, na Europa no confronto norte e sul e até em Portugal, nos confrontamos com essa ideia que uma parte de um território é a cigarra e outra a formiga, representa a natural divisão entre regiões mais indústrias e as mais rurais.

Tenho para mim que as declarações de Dijsselbloem têm uma muito limitada importância e nem as considero um insulto, porque gosto de facto dos elementos a que ele se refere. Só lamento que ele (e muitos como ele) não entendam que o facto de sermos diferentes e gostarmos de coisas diferentes só nos enriquece e nos faz mais fortes a todos nós. Mas não ignoro que este estereótipo existe e que é nossa a responsabilidade de provar (até para não sermos cruéis) que podemos gostar de muitas das boas coisas da vida e sermos ao mesmo tempo tão eficientes e produtivos como os do “Norte”.

Alguém uma vez disse algo do género “A vida não consiste em ter boas cartas na mão e sim em jogar bem as que se tem”, subscrevo.

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