O CALIFADO E O SEU CALIFA

por PAULO NOVAIS
Professor de Inteligência Artificial

Tenho ao longo destas crónicas abordado, com alguma regularidade, temas relacionados com a minha perceção sobre comportamentos que alguns atores do “circo” político vão assinalando. Confesso (aqui) que tinha decido terminar com esse ciclo. Terei, no entanto, de regressar a estas temáticas para abordar uma questão, cada vez mais pertinente, a dos “califados”.

O califado é uma forma islâmica de governo monárquico e o califa corresponde à posição de seu chefe de Estado que se baseia numa autoridade política, que lhe advém por ser considerado como um dos sucessores do profeta Maomé. O califa ostenta e representa a máxima autoridade jurídica, política, militar, social e religiosa dentro de um califado. O califa detém um poder (praticamente) absoluto e inquestionável nessas sociedades.

Esta forma de governação tem vindo a disseminar-se. Obviamente, os nossos “califas” não recebem a sua legitimidade por via de uma qualquer sucessão divina, mas diretamente de eleições em que os cidadãos lhe conferem um poder que (supostamente) é limitado no tempo (normalmente, podem candidatar-se a uma série limitada de mandatos). São selecionados, por indicação dos seus correligionários, em processos em que os critérios nem sempre são muito transparentes. São geralmente formados pelas “academias” dos partidos e pela participação ativa e sucessiva em eleições (o chamado combate), devido ao envolvimento precoce, por norma não têm outra carreira.

Os nossos “califas” exibem as suas funções de forma autoritária, mas tentam apresentar (particularmente em público) uma aparência simpática, com uma certa tolerância de superioridade e de convivência com os seus adversários.

Os califas têm uma interpretação muito própria da democracia, a democracia é um conceito que gostam de apregoar, mas acima de tudo a democracia é para os outros aplicarem. Praticam um certo aligeiramento da mesma, eles são a democracia em pessoa (auto legitimam-se).

Falam, falam e falam, i.e., gostam de se ouvir. Sim de facto, eles são a verdade (absoluta), estão sempre certos e tudo a volta são as virtudes da sua atuação. Tudo tem ou deveria ter o reflexo da sua mão.

Como egocêntricos que são, não vêm virtudes nos que lhe podem fazer sombra. Nunca dão visibilidade nem publicidade a quem possa ofuscar, nem que por segundos, o grande líder.

Em tempos de apresentação de resultados, como não têm nada que apresentar, transformam o nada em tudo. Eles não têm culpa de que quem delibera não seja capaz de percecionar e apoiar os seus (inexistentes) projetos.

Afinal meus caros! Os califas nunca dizem adeus, ficam sempre na retaguarda a controlar os seus domínios. Nunca se sabe se um dia terão de regressar a um lugar onde foram felizes (a este respeito recomendo a leitura de um artigo de Esser Silva e Moisés de Lemos Martins (2017) em “A cultura da entronização e da eternização da elite política”).

Talvez seja esta a hora (apropriada) de refletirmos um pouco sobre esta questão. Até porque como dizia Bernard Shaw (século XX) “O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada”.

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