O CARRO ABANDONADO

por JÚLIO BORGES

Docente

– Mãe! Está um carro velho parado, ali na rua!

– Bernardo, todos os dias estão carros parados de pessoas que não conhecemos. Está na hora de pensares que brinquedos gostarias de receber pelo Natal e escreveres a carta ao Pai Natal, não achas?

– Já vou mãe. Gosto tanto de olhar para a rua em dias de neve. Olha, que engraçado, vai ali, perto da mata, uma serpente a puxar um saco de castanhas!

O Bernardo é um menino que vive na Rua da Mata, ali perto da escola, onde uma enorme mata de carvalhos e castanheiros fazem as delícias da criançada, pela enorme área que têm para brincar, mas também fauna: esquilos e coelhos, ouriços e toupeiras, ratos e ratinhos. E veem-se imensas espécies de aves que preferem ficar e aproveitar o que outono tem para lhes dar, em vez de irem para terras mais quentes apanhar banhos de sol.

Naquele dia de inverno outonal, vendo a neve cair, aquele carro ali parado despertou-lhe os sentidos, ficando com os pelos eriçados. Algo de estranho se passava com aquele carro velho, parado há já dois dias, com um cobertor a tapar o vidro. Não. Não seria ninguém que quisesse fazer mal a alguém. Assim dava muito nas vistas!

Passou os dias seguintes a observar, os movimentos da rua, e o carro em particular.

O inverno, como um duende irritado, sobrepunha-se ao tempo que não era seu e encurtara o do outono que, deprimido, se havia escondido em qualquer tronco de árvore, mantendo-se quente, pois o frio que o inverno trouxera faria tiritar qualquer cubo de gelo.

Na televisão, a publicidade a brinquedos e jogos, consolas e livros, filmes e festivais multiplicava-se num sem-fim de cor, sons e desejos de consumir.

Na escola, todos os amigos do Bernardo carregavam os panfletos das diferentes lojas e gritavam eufóricos:

“Eu vou pedir este e aquele, que é o modelo mais fixe que, para além disto tudo, tem mais umas peças especiais!”

“Eu gosto desta boneca, mas a minha mãe diz que já tenho tantas. Tenho que dar aquelas com que já não brinco para poder receber os novos brinquedos do Pai Natal.”

Todos estes desejos de ter, todo este corrupio de consumo, absorviam os pensamentos das crianças da escola, não pensando em mais nada nem ninguém.

Ouvia-se todo um mundo de adultos dizer que não podia ser, que não podiam ter tudo o que queriam, que tinham que estar mais atentos na escola e estudar mais. Mas quem poderia ter vontade de trabalhar e estudar com tantos brinquedos por onde escolher, tanta publicidade que inebriava as mentes preparadas já para a época de receber?

Apenas o Bernardo ouvia um discurso diferente.

– Já escreveste a carta ao pai Natal? Tens que decidir o que pedir! Falta pouco para as férias e ninguém sabe o que gostarias de receber!

O Bernardo encolhia os ombros. Não lhe apetecia receber brinquedos, aparelhos eletrónicos, livros ou roupas novas. O Bernardo queria apenas saber o que se passava com aquele carro velho, ali parado, com um cobertor que cobria o para-brisas.

Faltavam apenas seis dias para o Natal. Cheirava-se a data festiva pelas ruas e pastelarias. O brilho das iluminações natalícias tornavam o dia mais longo, apesar de a escuridão chegar cada vez mais cedo. O frio criava lindos pingentes de gelo nos beirais dos telhados e varandas da rua. Durante o jantar, a mãe trouxera a grande novidade à família. O carro que estava estacionado há algumas semanas era onde vivia um senhor que ninguém conhecia e de quem nada se sabia.

A notícia trouxera para o interior da casa o inverno.

O pai e o avô reclamaram. “Quem quereria um estranho a viver dentro do carro na sua rua?” .

A avó benzeu-se, como sempre, apelando à bondade de Deus, para que nada de mal lhes trouxesse aquele malfadado vizinho.

A mãe confirmou o que já se sabia, que o mundo estava perdido e que com tantas casas vazias ainda havia gente a viver nas ruas e em carros, com o frio que estava!

Bernardo saiu a correr, entrou no seu quarto e fechou a porta. Pela manhã pediu ao pai para entregar no posto dos CTT a carta com o seu pedido de Natal. Estava claramente incomodado com a notícia do dia anterior, mas nada dissera à família.

O Bernardo viveu feliz os dias que faltavam para a noite de consoada, como qualquer criança, vendo televisão e preguiçando pelo sofá da sala. Mas, no dia 24, depois da hora de almoço, a campainha tocou e um estranho encontrava-se à porta.

– Boa tarde, disse ele, sou o gerente do Centro Comercial da cidade. Recebemos a carta do Bernardo e viemos agradecer-lhe o seu lindo gesto. O senhor que dormia naquele carro abandonado é agora nosso funcionário, passando a ter um emprego e uma casa onde morar. E como forma de agradecimento deixamos-lhe estes vales oferta para que o bernardo possa comprar os seus outros presentes de Natal.

 

 

Ilustração: Bárbara Correia da Silva 

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