O ÉBANO NOS SERMÕES DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Foi recentemente chamado o Padre António Vieira à liça por causa de uma sua estátua em Lisboa. Alguns pós colonizados resolveram manifestar o seu desencanto pela estatuária enquanto alguns saudosos resolveram, como dizem, “defender” a nação. Eufemismos à parte, a questão é de saber se o Padre António Vieira colocou os negros nas suas preocupações de dignidade humana, aliás, como o fez tanto com os índios como com os judeus e cristãos novos. Como sempre, em Portugal, rapidamente a discussão resvalou para os ataques: de um lado os obsequiosos da história eurocentrada persistindo na legitimidade da visão parcial – porque culta (não dizem mas pensam) – e, de outro lado, os incomodados cidadãos que lutam para que os europeus percebam que há uma outra visão possível da história que, manifestamente, é a história de todos porque integra tanto os contrários que persistem em aparta-se como os contrários auto apartados na superior condição estatutária de autores – e logo donos – da história.

Temos assim um Portugal que clama garboso o seu feito de 1761 quando “aboliu” a escravatura – ainda que o só tenha feito no papel e a desgosto. Como é sabido, a interpretação foi a de que o comércio de escravos podia continuar, abolindo-se apenas em Portugal o direito de “fazer escravos”. Podia-se comercializar mas não se podia ter em casa. Todavia, ainda em pleno século XXI, promove-se a invisibilidade do período anterior, fazendo de conta que não há uma história de um país esclavagista a contar, a ensinar e a debater. Esta capacidade extraordinária de esconder o lixo debaixo do tapete que é como quem diz, de fazer de conta que a realidade se não deu, constitui um daqueles exemplos que José Gil chamou de “o medo de existir”. No que diz respeito à arte de esquecer aquilo que é negativo no seu bilhete de identidade, Portugal é tão ou mais rico do que a arte de guardar memória dos seus feitos tornados heroicos.

O caso do Padre António Vieira é assaz exemplar: praticamente todo o conhecimento transmitido por este engenhoso e excelso cultivador da língua portuguesa centra-se no Sermão de Santo António aos Peixes. À parte o estilo barroco pouco apreciado pelos alunos, não é dado às escolas oportunidade para levar o conhecimento deste autor mais além. É de reter que, um dos aspetos mais trabalhados neste sermão centra-se exatamente na dimensão desassombrada e humana Padre António Vieira. A defesa exercida pelo jesuíta em relação aos índios, impedindo a sua transformação em escravos, é sem dúvida um ato de coragem. O enfurecimento dos colonos brasileiros do século XVII, que assim se viam privados da mão-de-obra graciosa dos índios, é bem conhecido.

O Padre Jesuíta havia também de defender o regresso dos judeus e o fim da distinção entre cristãos novos e cristãos velhos. Fá-lo praticamente em público desafiando a santa inquisição. Aliás, ele será preso e condenado pela Inquisição com a pena de “impedido de usar a voz”. A sentença é mais tarde anulada por intervenção da Companhia de Jesus.

Não há dúvidas, portanto que o Padre António Vieira estava à frente do seu tempo. O que se não compreende é a sua posição sobre os negros. No Sermão Décimo Quarto do Rosário proferido na Igreja dos Pretos da Bahía dirige-se aos escravos. Recorda-os a sua condição de cristãos e de filhos legítimos de Maria. Por isso, compara-os a Jesus Cristo. Os engenhos movidos pelo trabalho escravo, para poupar os animais, são uma tormenta que o Padre António Vieira atribui um sofrimento próximo do sofrimento de Jesus Cristo na Cruz. Trata-se de um inferno mas, em comparação com o terrível inferno por onde passou Cristo, o martírio dos escravos é classificado como um “doce inferno”. Considerando que o trabalho nos “engenhos” se destinava a produzir calda de açúcar, a expressão “doce inferno” tem de ser analisada no seu contexto. E qual o contexto?

Nem mais nem menos o de que os negros, apesar de filhos de Deus, deviam contentar-se com a sua sorte. Toda a malha mental de conhecimento produzida no século XVI e XVII tem por base os Génesis. É a altura em que Galileu salva-se da fogueira à última da hora por cometer a heresia de afirmar que a terra andava à volta do sol e girava sobre si. Nesse caldo de pensamento, é atribuído a Noé e aos seus descendentes o povoamento do mundo. A missão, dada a Sem, Jafé e Cam é, todavia, enfermada por um episódio que amaldiçoa este último filho de Noé. Segundo o Livro do Génesis, os Cananeus – os filhos de Cam – nascerão amaldiçoados. E para que paragens é enviado Cam para procriar? Exatamente para o que hoje conhecemos por África. Os pretos foram assim, durante muitos séculos, considerados filhos de uma maldição divina.

Apesar de estar à frente do seu tempo, o conhecimento do Padre António Vieira totalmente construído com base nos ensinamentos e leituras religiosas, impede-o de produzir uma intervenção no sentido da libertação dos escravos. Ele defende os índios da escravatura mas entrevê nos negros a anátema lançada a Cam que por ter visto o pai Noé nu, foi amaldiçoado em toda a sua descendência. Eis porque, ainda no presente, é possível escutar barbaridades e desqualificação humana porque se transporta a tom do ébano na pele.

 

 

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