“O LOBO MAU E A TROPA FANDANGA”

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista clínico

Longe vão os tempos em que a estorinha do “capuchinho vermelho” fazia as delícias da criançada. Hoje em dia, nos lugares mais recônditos, perdidos no meio da floresta, já não existem lobos (nem bons, nem maus), as meninas de capuchinho vermelho já só visitam a aldeia nas férias grandes, os lenhadores escasseiam e as avozinhas, acompanhadas dos avôs, são os únicos seres humanos que ainda habitam essas paragens. Dir-se-ia que os personagens da estória mudaram e nos tempos que correm a floresta é explorada pelas chamadas empresas da fileira da madeira, o papel do capuchinho vermelho é desempenhado pelos ingénuos (?) agentes da protecção civil e o lobo mau é o incêndio traiçoeiro, que começa com uma pequena fogueira de lume brando e de repente atinge quilómetros de labaredas indomáveis e por vezes assassinas.

Enquanto as coisas se situam no domínio das estórias para crianças, ou mesmo para adultos, tudo corre bem. O problema é quando a ficção se torna realidade, como aconteceu em Pedrogão Grande e arredores, sem que os “autores” e os “leitores” aprendam algo com a “moral da estória”, ano após ano. Em vez disso, passam o tempo em busca de culpados, que nem sempre coincidem com os criminosos. Vá-se lá chamar criminosos aos raios originados por trovoadas secas, aos eucaliptos, aos pinheiros, à seca, aos desertores que emigraram para a orla marítima!… Quando muito podem ser culpáveis. Juridicamente incrimináveis é que não. Mas se existe o fogo florestal, também existe o fogo das armas e como diz a Lei de Murphy, “ se algo pode correr mal, correrá mal”. Por isso, depois de Pedrogão Grande, vem Tancos e uma vez mais o Governo é o alvo contra o qual todos apontam o cano do fusil, ao mesmo tempo que gritam: “FOGO!”.

Embora Pedrogão e Tancos configurem, segundo os comentadores de serviço, situações completamente diferentes, não deixam de ter em comum o fogo, no qual se pretende assar ministros e generais em lume brando.

No caso de Tancos, a situação é menos complexa e mais fácil de resolver do que no caso dos incêndios. Entre os vários motivos que possam ser aduzidos para o roubo de material de guerra no polígono militar de Tancos, o principal chama-se desleixo, pois, como se diz em gíria militar, a tropa baldou-se.

Quem gosta de complicar as coisas, fala em cativação de verbas, em cortes orçamentais, em desinvestimento na defesa.

É um facto, e não podemos ignorá-lo, que as despesas com a defesa em Portugal representavam em 1961, ano em que começou a guerra do Ultramar, cerca de 5% do PIB e em 2015, representaram menos de 2%. Entre estas duas datas, deu-se a descolonização, entramos em “modo de paz” e por isso o serviço militar deixou de ser obrigatório, sendo o contingente militar fortemente reduzido.

Actualmente, o serviço militar que tem como fim primordial a Defesa Nacional, é assegurado por tropas voluntárias, que recebem um salário compatível. A imagem que a população tinha dos militares, e penso que continua a ter, é aquela que ainda há pouco nos foi transmitida pelas tropas que desfilaram no dia 10 de Junho – a imagem de uma tropa de elite. Mas para que esta imagem e a consequente confiança nas forças armadas se mantenha, é preciso que os militares demonstrem que, mesmo com os escassos meios de que dispõem, são capazes de defender o seu espaço de aquartelamento, antes de se abalançarem no desígnio maior que é a defesa nacional. Caso não o consigam demonstrar, como aconteceu em Tancos, passarão a transmitir a imagem de tropa-fandanga, o que nos deixa a todos muito mal na fotografia.

 

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