O RARÍSSIMO ANO DE 2017

por Carlos Guimarães

Médico

 

Dois mil e dezassete, retenham este número, não é um número qualquer embora tenha características semelhantes a muitos outros números, é um número impar, é um número primo, e corresponde a um ano recheado de acontecimentos raríssimos! O que irá mudar em Portugal e na vida das pessoas em 2018? Se não morrer ninguém que amamos, se não nascer uma criança ou uma pessoa nova na nossa vida, se não surgir nenhuma desgraça, não irá mudar NADA. Todas as mudanças anunciadas para o próximo ano, que ocupam páginas e páginas dos jornais e horas sem fim nos serviços noticiosos da televisão, resultam em praticamente NADA. A única grande mudança está no calendário. Na verdade os outros podem provocar mudanças na nossa vida, mas se queremos mudar para melhor, isso vai depender essencialmente de nós. Nós somos e seremos o principal motor da nossa diversidade e podemos fazer as mudanças na nossa vida em qualquer momento, não precisamos de comer 12 uvas passas, arremessar confettis nem jorrar espuma de champanhe pela meia noite do dia 31 de dezembro para firmar mudanças na nossa vida. Se queremos um ano melhor, uma vida melhor, um futuro melhor, temos de o fazer acontecer e para isso qualquer dia serve para ligar a ignição e pôr o motor da mudança a funcionar.

 

As pessoas estão difíceis de aturar, encontram-se desiludidas, desmotivadas e sentem-se perseguidas, desconhecendo muitas vezes quem é o perseguidor. Algumas nem se toleram a si próprias. Sentem-se esmagadas pela sociedade, asfixiadas no emprego, e já não sabem gerir o pouco tempo livre de que dispõem. As pessoas fogem cada vez mais à verdade. Lamentam-se, criticam, enfurecem-se; mas quase sempre longe do local apropriado ou das pessoas alvo. Estão controladas pelo medo, embora digam que não têm medo de nada, e encolhem os ombros quando antes, no momento de fúria ou lamento, se mostravam capazes de mover montanhas.

 

2017 foi um ano em que apenas o absolutamente impossível não foi possível acontecer, já que o praticamente impossível aconteceu. 2017 foi mesmo um ano raríssimo, foi tão raríssimo que esperamos que rarissimamente volte a acontecer. É raríssimo um paiol de munições militares ser assaltado e desaparecerem toneladas de material bélico, mas aconteceu em Tancos. É raríssimo acontecerem festas e jantares nos cemitérios, mas aconteceu no Panteão Nacional. Portugal arde sempre no verão, mas é raríssimo morrer tanta gente, é raríssima tanta descoordenação, é raríssima tanta responsabilidade, como tão raríssimo foi assistir à destruição do secular pinhal de Leiria num raríssimo fim de semana quente de outubro. Quem lá esteve parecia estar a viver o Armagedom, a batalha final de Deus contra a sociedade humana.

 

É raríssimo ver Portugal ganhar o Festival da Eurovisão, mas ganhamos ao amar pelos dois.

É raríssimo ver o Benfica perder todos os jogos de uma competição europeia, mas ficou mesmo pelos raríssimos zero pontos, uma situação tão híper raríssima que nunca aconteceu a qualquer outro clube europeu.

É raríssimo aceitar gestores de empresas públicas subtraírem os salários dos trabalhadores, mas aceitamos, aqui mesmo, ao nosso lado, longe de Lisboa.

A chuva teimou em aparecer, algumas barragens quase secaram, mas com a imbecilidade encadeada de tantos políticos, rarissimamente deixaremos de assistir a procissões de camiões cisterna a transladar água entre barragens.

Provavelmente a presidenta das Raríssimas é uma presidenta pouco raríssima, semelhante a outras tantas presidentas e presidentes que rarissimamente iremos conhecer.

Uma raríssima pitada de pouca vergonha na cara não faz mal a ninguém.

Faço votos para que 2018 seja um ano menos fértil em raridades, mas isso rarissimamente irá acontecer. Temos de estar preparados para assistir a mais um ano raríssimo.

 

Um bom ano para todos, com muitos sorrisos porque “O Sorriso é a Morte de Todos os Medos”.

 

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