OS GRUPOS PROFISSIONAIS E PODER MUNICIPAL

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Se alguém fizer a história dos municípios, no que aos campos de atuação diz respeito, verá que, regra geral, a grande preocupação política se situa ao nível das edificações. É muito raro o desviar de atenções para outros campos. No passado, se eles existiam, tal ficava-se a dever a circunstâncias trágicas ou do limite de sobrevivência. Um exemplo pode ser encontrado nas decisões do município vimaranense durante a pneumónica que, em 1918-1919, dizimou largas dezenas de vimaranenses. Um segundo exemplo histórico pode ser encontrado nos anos da Segunda Guerra em que o município se viu na necessidade de comprar milhares de toneladas de milho para fazer face à fome. Desse tempo ficou registada uma tragédia maior, com duas dezenas de mortos, ocorrida na Basílica de S.Pedro no Toural cujo soalho cedeu ao excesso de pessoas que aí procuravam obter pão que o padre local entregava às pessoas. Durante muitos anos, os exemplos de decisões contrárias ao corpóreo como desígnio político situam-se, quase sempre, em situações impostas pelo destino.

A democracia instituída em 1974 teve essa coisa boa de fazer mexer com as cabeças. Com o poder municipal gradualmente fortalecido em termos
económicos, surgiram novas necessidades, nomeadamente de alimento do espírito dos cidadãos. Mas se hoje há presença orçamental para a cultura e lazer, tal deve-se muito à pressão exterior, nomeadamente ao nível das associações que, ao longo dos tempos, pressionaram o município vimaranense, a tal ponto de, a cultura e lazer se terem constituído em áreas ativas, tecnicamente exigentes e, no decorrer do
tempo, numa espécie de alma mater da identidade vimaranense. A novilíngua política afirma a área cultural como imaterial, atribuindo o epítome de material ao palpável, isto é, edificável. Apesar de aparentemente, este artifício anula a exigência de distinção dos seus objetos. Assim, pode haver cultura com o material.  Para tal basta construir-se um edifício afirmado para esse fim. Mas note-se que o contrário se não dá, isto é, não há imaterial nas edificações. Aparentemente todo o cimento é útil. Esta construção da utilidade do edificável é extraordinária porque parece surgir do nada. E, rapidamente, transforma-se no exigível.

Objetivamente os grupos profissionais estão na base desta artimanha assente no explorar da malha mental do desenvolvimento a partir das edificações. Estes grupos cresceram muito com a democracia e o facto de Portugal ter estado subsumido, praticamente vinte anos, entre plataformas, andaimes e retroescavadoras, criou nos municípios uma espécie de cluster que alimenta estes interesses. O poder municipal vive assim, paredes meias, com um outro poder – os profissionais de cimento. Na viciação sistémica estabelecida um não poe viver sem o outro. Ideias imateriais são explicáveis mas não demonstráveis em maquetes ou fotos de cartazes. Já as ideias materiais mediatizam com inegável facilidade. Engordam os olhos, captam a atenção, promovem discussões ridículas a saber se uma travessia, sem margens ser ponte.
Ocupa-se desta forma o espaço das discussões fazendo parecer que toda a importância se esgota na ponte, no túnel, no parque de estacionamento, na estrada, no passeio, no edifício. Todos os problemas ficarão resolvidos com mais uma parede, um muro, um arranjo urbanístico, um parque, uma estátua,
uma rotunda.

Poder-se-ia estar a tentar compreender como melhorar o empobrecido tecido social agindo sobre ele: como transmitir gosto por saber aos que nascem em berços onde disso se não fala, como mudar e acelerar a formação profissional de quem não lhe tocou conhecimento, como alterar a mobilidade pela transformação dos hábitos, como dinâmica nos fluxos entre as centralidade difusas, como interligar os sentidos entre o centro e a periferia, como dar vida a uma economia distributiva à escala local, como introduzir práticas ambientais para além dos discursos, como ajudar empreendedores a empreender. Tudo o que aqui se faz referência não é novidade. Tem é a particularidade de não ser mensurável em
cartaz eleitoral. Não evoca a imagem do compromisso. Sendo intangível, vai para o rol dos discursos, embrulhado nas formas manipuladoras de afirmar nada.

 

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