PATOLINO, UM PATO NADA FEIO

por JÚLIO BORGES

Docente 

Patolino era o pato mais belo da capoeira do senhor Domingos. As suas plumas, alvas como a neve, faziam a inveja de todos quantos passavam pela capoeira.

Era invejado pelos gansos, que cedo se despediam de todos e terminavam no forno de alguém. Era invejado pelas galinhas que passavam os dias fechadas nas casotas para poedeiras, saindo apenas ao final da tarde para apanhar alguns raios de sol, esticar as penas e as patas e debicar, aqui e além, uma ou outra minhoca mais distraída, enquanto ele se passeava descontraidamente, sem regras nem prisões. Era invejado pelo galo, por não lhe ser dada a importância e valor que julgava merecer, que com a sua bela e afinadíssima voz era o despertador de toda a quinta e arredores.

Patolino tinha as regalias de uma verdadeira estrela da capoeira. Andava pela horta do senhor Domingos sem pudor nem medo, como provocação às restantes aves que se encontravam do outro lado da rede. Não tinha nenhuma tarefa aparente. Não cantava para todos acordar. Não punha ovos para a sra. Esmeralda fazer aquelas tartes famosíssimas de ganso e ruibarbo. Não dava leite como Amarela, a vaca, nem puxava a carroça onde os netos do sr. Domingos gostavam tanto de andar quando chegavam para as férias grandes.

Patolino era realmente uma vedeta.

Certo dia, num belo dia de primavera, daqueles dias em que o sol quente chama pela preguiça, e esta não se roga a surgir incrustada nos músculos e vontade, Patolino dormitava junto à capoeira. Um molho de couves bem fresquinhas, acabadinhas de regar, meia dúzia de rabanetes e três vermes distraídos haviam cumprido a sua função, um papo bem cheio.

Do outro lado da rede, as seguidoras, patas patetas que grasnavam constantemente desde o raiar do dia até ao pôr-do-sol, encantadas com o seu amado, grasnavam como nunca. O galo cantava como se não houvesse novo amanhecer, como se o sol não fosse quente e confortável, como se algum perigo se aproximasse. As galinhas cacarejavam como loucas.

“Quantas dúzias de ovos terão postos estas tolas galinhas para fazerem esta chinfrineira?”, pensava aborrecido Patolino para com as suas penas.

E preso nos seus pensamentos e vaidade, Patolino não reagiu a tempo, embebido na sua importância, beleza e desprezo pelos restantes animais da capoeira. Patolino não reagiu a todo o ruído que as aves se esforçavam por fazer.

Patolino acabou por não saber o que realmente se passara. O que motivara aquela “chinfrineira”.

Patolino nunca soube!

Mas nessa noite, a noite daquele dia de primavera em que o sol chamava a preguiça, e que um molho de couves bem fresquinhas, acabadinhas de regar, meia dúzia de rabanetes e três vermes distraídos haviam cumprido a sua função, a raposa que passou pela horta do senhor Domingos, teve um belo jantar.

Ilustração:

Óleo sobre tela de  Bárbara Correia da Silva

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