PELA CIDADE

por WLADIMIR BRITO
Professor de Direito na Universidade do Minho

1. Não posso deixar de recomendar a visita a duas excelentes exposições. Uma de Almada Negreiros, na Gulbenkian, e outra The Global City, no Museu Nacional de Arte Antiga. Informa-nos o catálogo da exposição que para Almada Negreiros “isto de ser moderno é como ser elegante (…) ser moderno (…) é ser legítimo descobridor da novidade”. Este é o seu entendimento do “absoluta
mente moderno” do poeta Rimbaud, em quem se insp ira. Para Almada Negreiros a novidade do ser (no sentido de ente heidegeriano) moderno no domínio da Arte é a individualidade assumida na sua plenitude como um ser-para-a-arte, que se realiza em cooperação inter-subjectiva. Por isso, este modernista rejeita a ideia de grupo, mas já não a de comunidade de colabo-radores respeit
adora da irrepetível singularidade de cada um. Daí que Almada Negreiros afirme que aqueles que se juntaram na Revista Orpheu não formavam um grupo, mas colaboravam pela Arte, como muito bem se escreve no guia da visita, por, entendo eu, se assumirem como entes singular-mente posicionados perante a Arte, portadores de uma irredutível visão pessoal da Arte. Para Almada, tal como para Appolinaire, citado pelo filósofo Levinas, “Il y a”, há Arte, entendida como a alegria da criação e da abundância da fruição do belo na esfera pública, o que implica acção comunicacional também pela via da representação. Em e para Almada Negreiros há Arte, no artista, enquanto ser-para-si, com a sua ideação e criação do belo, e nos outros como intencionalidade do belo. O artista eleva-se à categoria de um ser-para-os-outros e é por estes reconhecido como tal. Felicitamos a Gulbenkian pela promoção desta exposição e a Curadora Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos pelo excelente trabalho que fizeram.
2. The Global City, Lisbon in the Renaissance, outra excelente exposição que revela a importância de Lisboa do século XVII. Inteligentemente organizada, a exposição não se resume à apresentação dos dois quadros – era um único mas o inglês que o adquiriu decidiu cortá-lo e fazer dois quadros – e de um outro (objecto de viva polémica) que retratam o quotidiano na Rua Nova dos Mercadores. Vai mais longe para, complementarmente, envolver esses quadros com peças de artes oriundas do Oriente, da África e, até mesmo, da Europa representativas e constitutivas de uma simbiose de diversas culturas que nos permitem ter uma visão integrada da importância dos descobrimentos portugueses na história europeia ou, se se quiser, como vem sendo defendida por certos historiadores, para a primeira globalização. Num país que se deprime com facilidade e se autoflagela com o modo como se autorrepresenta, essa exposição é seguramente um estímulo à autoestima, por permitir que tome consciência do seu papel para a formação da cultura europeia.

O Museu Nacional de Arte Antiga, que guarda em lugar de destaque um dos mais belos trabalhos da ourivesaria portuguesa e europeia, a Custódia de Belém, do nosso Gil Vicente, também está de parabéns. E não digam que não falei de Guimarães.

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