RAMOS-HORTA FALA SOBRE A “CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA”

José Ramos-Horta, o Prémio Nobel da Paz em 1996, e um dos obreiros da independência de Timor-Leste e da construção do novo estado democrático, esteve em Guimarães, na quarta-feira, dia 31 de maio. A iniciativa foi do Núcleo de Estudos do 25 de Abril e integrou as comemorações do dia da Liberdade.

José Ramos-Horta foi Prémio Nobel da Paz em 1996

O Timorense começou a conferência por explicar a sua vinda a Portugal, para participar nas Conferências do Estoril, e logo nos primeiros momentos pôs a sala, cheia, do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta a rir, quando disse que “provavelmente Deus me castigou com um encontro com esse idiota do Brexit”. “Os caminhos para a paz são tortuosos”, disse o Prémio Nobel. Disse isto e caracterizou a paz como algo prático: “é a possibilidade das crianças irem à escola, possibilidade dos mais pobres poderem elevar as suas condições de conforto”. Num estilo levemente irónico, que acompanhou toda a sua intervenção, brincou com a sua própria condição: “tanto encontro de Nobel da Paz e olha como está a paz no mundo”.

Para Ramos-Horta a língua foi a barreira que impediu a assimilação total

Foi à volta da língua portuguesa que se situou a imagem que Ramo-Horta deu da construção da democracia no seu país. “Em 1975 menos de 4% falava português e depois de 24 anos de ocupação indonésia menos de 1% falava a língua portuguesa”, começou, para depois explicar a importância que a língua teve na construção da identidade timorense. O Prémio Nobel da Paz lembrou que não existe, do ponto de vista antropológico, um povo timorense. “O povo de Timor-Leste existe a partir da colonização portuguesa, da evangelização católica e de uma negociação entre portugueses e holandeses”, afirma Ramos-Horta. A própria língua tétum, hoje a mais falada, foi disseminada pelos missionários portugueses, “graças à evangelização”.

Porquê o português e não o inglês?

O Prémio Nobel da Paz deu esta imagem para realçar a importância da implantação da língua portuguesa “como barreira contra a absorção cultural total”. Sempre num recorte ligeiro que cativou a audiência quando contou como tinha convencido um congressista norte-americano que o inglês não era determinante para o desenvolvimento de Timor, dando o exemplo da Libéria (antiga colónia dos EUA e de língua inglesa). “Cabo-Verde país pequeno, sem petróleo, cheio de pedras, está melhor que a maioria dos países de África”, acrescentou Ramos Horta.

A importância de sarar as feridas de 24 anos de ocupação Indonésia

José Ramos-Horta acabou a fazer um balanço do estado da democracia Timorense, lembrando que o Estado é muito jovem e foi feito muito rapidamente. “O Conselho de Segurança deu à ONU um mandato de dois anos para criar um Estado”, recordou Ramos-Horta. Apesar destas dificuldades, Ramos-Horta, dá um retrato positivo da democracia timorense. Lembra a importância da “reconciliação nacional e reconciliação com a Indonésia. Resistimos a todas as pressões para criar tribunais especiais para julgar os crimes de guerra”.

“Os portugueses não se devem arrepender de ter apoiado o processo de formação do Estado timorense”, Ramos-Horta

“The Economist afirmou que a democracia de Timor-Leste é a que melhor funciona na região”, recordou o Nobel da Paz. Apesar disto, Ramos-Horta não deixa de ser crítico relativamente à democracia de Timor-Leste, que apesar de ser a que melhor funciona no sudoeste asiático, ainda é muito permeável à corrupção. Apontou como principais problemas da jovem democracia a entrada de pessoas para a prostituição forçada, o branqueamento de capitais e o facto de o território ser usado para introduzir droga em outros países da região. Terminou dizendo que “os portugueses não se devem arrepender de ter apoiado o processo de formação do Estado timorense”.

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