TANTO (A)MAR

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Colada à saudação de Chico Buarque ao 25 de Abril em Tanto Mar, ficou a alegria imensa que o  momento pedia, por cá, aproveitando a canção  para pedir  que lhe mandasse, para lá,  urgentemente, um cheirinho de alecrim, de que estava carente, por se encontrar doente.

Vale a pena recordar as palavras desta icónica canção de 1975:

Sei que estás em festa, pá / Fico contente /E enquanto estou ausente / Guarda um cravo para mim /Eu queria estar na festa, pá / Com a tua gente / E colher pessoalmente / Uma flor do teu jardim. / Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / Navegar, navegar / Lá faz primavera, pá / Cá estou doente / Manda urgentemente / Algum cheirinho de alecrim
O grande Chico Buarque viu a Revolução murchada e a Festa estragada pouco tempo depois. Não é forçoso estar de acordo com o genial autor, compositor, escritor, cantor, tudo!  Quem aqui escreve não vê essa evolução do mesmo modo. Mas a canção voltou enorme, saudando pelo outro lado, numa nova versão de 1978 onde a nostalgia vale já mais que a alegria inicial. E dizia

Foi bonita a festa, pá  Fiquei contente  E inda guardo, renitente  Um velho cravo para mim / Já murcharam tua festa, pá / Mas certamente / Esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim / Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / Navegar, navegar / Canta a primavera, pá / Cá estou carente / Manda novamente / Algum cheirinho de alecrim
Estas duas canções, ambas geniais –cada uma a seu modo-  são de Chico Buarque Buarque. Mas fizeram uma outra. Logo  a partir da primeira. E essa não é de Chico Buarque. Essa coisa fê-la um coronel anónimo, de um gabinete obscuro, um tipo sem nome, sem rosto, em nome de uma estrutura conhecida -a censura- e para defesa de fins miseráveis de um férreo sistema político -a ditadura. Essa terceira versão era uma canção amputada, uma não canção. Instrumental, apenas. Quando se iniciou o movimento da balada em Portugal, em inícios de 60, o Brasil era uma democracia e Portugal uma ditadura. Canções proibidas cá podiam tocar lá. Em 1975 éramos nós que vivíamos em liberdade e era lá que a ditadura calava essa perigosíssima arma chamada canção, um fuzil demasiado certeiro, sobretudo quando festivo, reclamando por um bem inexistente – a liberdade. A censura –era tão triste a censura!, tão estúpida!, como dizia o enorme Manuel da Fonseca- podia permitir-se matar uma canção,  roubar-lhe a seiva.- Foi o que fez com Tanto Mar, nessa triste homenagem ao vazio que no Brasil saiu em formato instrumental.  Uma peça triste, sem sangue, sem nada. Uma originalidade brasileira que não viria a ser editada em Portugal.

Não é obrigatório aderir a todas as palavras de todas as canções. Poder fazer caminho, poder  o povo decidir por si -desde logo, podendo falar-, esse é o bem mais precioso, de todos o bem mais inestimável. O começo e fim do caminho tem esse valor lá presente. O resto discute-se com isso presente. Aquela terceira versão  de Tanto Mar é o retrato sonoro da amargura, de como uma lindíssima melodia pode transformar-se, pelos horrores de uma estética do desespero, num corpo inacabado, mutilado. O silencio a que Chico se refere no monumental Cálice. “Pai /  Afasta de mim esse cálice”, que na verdade valia por “Pai, afasta de mim  esse cale-se” é o mais duro dos muros. Uma das mais amadas “portas que Abril abriu”,  é aquela a que Antero se referia superiormente e que devemos ao 25 de Abril:  “Não é tudo a liberdade / Mas é o primeiro passo / Para que tudo se alcance / De tudo o que é justo e santo

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