TURISMO DE MASSAS OU INVASÃO PACÍFICA?

por ANTÓNIO ROCHA E COSTA
Analista clínico

Um excerto do livro intitulado “As Rosas de Atacama”, do escritor sul-americano Luís Sepúlveda relata-nos um episódio curioso passado num lugar recôndito, situado algures na floresta amazónica. Conta-nos o autor que um certo dia, um viajante europeu, munido de apenas uma mochila e uma carta geográfica, deambulava por aquelas paragens com o propósito de visitar uma reserva de índios.

Para lá chegar o homem teria que atravessar um rio e por isso dirigiu-se a um rudimentar cais de embarque para apanhar o pequeno barco que o transportaria até à outra banda. Deparou-se então com um barqueiro de poucas maneiras, tisnado pelo sol e endurecido pela vida, que lhe perguntou: Então você para onde vai? Vou ver os índios que habitam na aldeia mais próxima – respondeu o visitante.

– Mas já perguntou aos índios se eles o querem ver a si? – rematou o barqueiro.

Esta breve passagem do livro, escrito já vão uns bons pares de anos, ilustra na perfeição e com um notável sentido premonitório, o dilema do turismo de massas, que é visto por muitos como uma espécie de praga dos tempos modernos.

O fenómeno turístico, carecendo de uma análise mais detalhada e aprofundada, não deixa de reflectir um conjunto de circunstâncias que têm a ver com o crescimento exponencial da chamada Sociedade do Lazer, proporcionado pelas facilidades cada vez maiores oferecidas por um mercado agressivo e em franca expansão, como são os voos e os alojamentos a preços de saldo, por exemplo.

Ninguém ignora que a indústria do turismo tem um peso cada vez maior no PIB de muitos países, mas a sua densificação, traz inconvenientes diversos e começa a pôr em causa um certo e desejável equilíbrio entre os interesses dos turistas e os das populações autóctones.

Em certos países, onde o turismo tem crescido a um ritmo muito rápido, como é o caso da vizinha Espanha, já se notam sinais de turismofobia por parte dos habitantes locais, que veem nesta “invasão pacífica” um ataque à sua qualidade de vida.

Em Portugal, sobretudo no Algarve, e nas cidades de Lisboa e Porto, depois de uma certa euforia, provocada pelo impacto do aumento crescente do turismo na actividade económica, já se começa também a notar alguma preocupação perante a ocupação excessiva dos espaços e a subida dos preços no sector da restauração, da hotelaria e do imobiliário.

Guimarães, a uma escala mais reduzida, também já começa a conviver com este fenómeno, embora aqui, exista mais um turismo de passagem, que não fixa os visitantes por mais de um ou dois dias.

Quem por estes dias, passear pelo centro histórico da nossa cidade, terá oportunidade de se cruzar, para além dos emigrantes que nos visitam nesta época do ano, com forasteiros de várias nacionalidades, avultando os espanhóis, franceses e brasileiros.

É vê-los, principalmente nestes dias festivos das Gualterianas, de máquina fotográfica e de telemóvel em punho, a fotografar tudo o que encontram pela frente, para em seguida colocar no Instagram ou no Facebook.

Modernices!… – Dirão os mais conservadores, para quem as férias do antigamente constituíam momentos reparadores de convívio com a família e os amigos, até altas horas da noite, em torno de uma bebida refrescante e um petisco à maneira.

Com o Agosto a avançar pelo Verão adentro, resta-me desejar a todos umas Boas Férias.

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