UM POVO QUE NECESSITA DE HERÓIS PARA SE SENTIR GRANDE

por PAULO NOVAIS
Professor de Inteligência Artificial

Um herói é um indivíduo que se destaca por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de carácter, ou outra qualquer qualidade que possa ser considerada notável. Alguém que provoca admiração.

Como gostamos nós de heróis!

Fernando Pessoa dizia que “o português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja, porque somos um grande povo de heróis adiados”. Somos de facto um povo estranho em que tudo serve para nos dividir, diminuir, recriminar, nada nos satisfaz, mas de repente tudo muda e somos, como que por magia, grandes outra vez.

Sonhamos com heróis, aspiramos por heróis e para nós nada é mais popular do que um herói. Eles fazem-nos falta, necessitamos deles como de pão para a boca.

Desde sempre nós os Portugueses temos este fascínio por heróis. Na escola ensinaram-nos as façanhas de Dom Afonso Henriques, do Infante Henrique, de Vasco da Gama, de Dom Sebastião que um dia regressaria por entre as brumas. Fazem parte do nosso imaginário e são os pilares de um caminho que percorremos enquanto país.

Nos últimos tempos temos tido um (novo) “fartote” de heróis desde a Seleção Nacional de futebol ao Salvador Sobral. Voltamos a sonhar e a ser grandes. Tudo voltou a ser possível e, pronto, estamos novamente felizes, motivados e cheios de energia até à próxima dificuldade que nos fará voltar ao nosso “triste” fado (a nossa sorte).

Sendo de facto interessante que um povo consiga gerar heróis (estes seres grandes aos nossos olhos), não deixa de ser verdade que estes fenómenos servem fundamentalmente para nos distrair. Porque nos dão uma visão desfocada da realidade, uma visão de que tudo está melhor, o que não corresponde à verdade.

Estes fenómenos são na generalidade casos isolados, esporádicos e irrepetíveis por serem fruto de um acaso. Não são o fruto de um qualquer desenvolvimento nem representam avanços de uma comunidade ou sociedade. São uma sorte que não deu muito trabalho. A sociedade que os viu surgir não os consegue reproduzir e por isso tem um resultado limitado que não tem efeito sequente, limitam-se a galvanizar temporalmente e emocionalmente.

Bertolt Brecht (século XX), através do seu Galileu na peça “A Vida de Galileu”, diria que “infeliz do povo que precisa de heróis”, expressando que quando um povo precisa de heróis é porque ele ainda é escravo, em grande parte, da tirania do medo e da ignorância, que não vive na plenitude a sua liberdade. Esta palavra gasta, que todos usam mas que ninguém aplica, liberdade.

Mas afinal o que nos falta (como sociedade e como povo) para não necessitarmos de heróis para sermos felizes?

Combater a ignorância nas suas múltiplas expressões e sentidos. Aliás, a este respeito, Napoleão afirmava (supostamente) que “as verdadeiras conquistas, as únicas de que nunca nos arrependemos, são aquelas que fazemos contra a ignorância”.

Nota: eu gosto de um bom herói, não há nada como um herói culto, simpático e simples, um “gajo” porreiro.

PS: Dito isto, estou a torcer para que os nossos “heróis” que vestem de Branco e Preto cheguem ao Jamor e nos tragam o caneco. Lá estarei!

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