ÚTERO CELEBRA 20 ANOS COM “O DUELO” NO CCVF

“O Duelo”, criação que comemora os 20 anos do Útero, chega ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor no próximo sábado, 25 de fevereiro, às 22h00. Miguel Moreira regressa a Guimarães para apresentar o seu olhar sobre a obra de Bernardo Santareno, um dos grandes dramaturgos portugueses do séc. XX.

 

Em cena, sete intérpretes e cocriadores “cospem” palavras, acompanhados pela música de Pedro Carneiro que afina o lugar do som e das emoções. Os seus corpos, oprimidos, tentam libertar-se. Neste duelo, não há receio em acentuar os elementos rurais que, hoje, julgamos terem desaparecido. Permanecem traços de um outro tempo. Um tempo onde corpos, cheios de instintos primários, tentam sonhar outra vida.

“O Duelo” enquadra-se no universo da lezíria ribatejana e é um retrato repleto de tensões na difícil relação entre os senhores e os seus subordinados. A linguagem de Bernardo Santareno remete para o lado mais animalesco que carregamos dentro de nós. O Útero, coletivo que se carateriza por uma certa crueza e visceralidade, pega nesta peça e dá-lhe um corpo, exacerbando a ruralidade que aproxima os homens dos animais.

Este espetáculo vem perseguindo Miguel Moreira há vários anos: “É uma peça que me segue há dez anos (…) Eu sempre achei que o Santareno tem umas palavras físicas, é sadomasoquista, uma homossexualidade recalcada, uma ambivalência sexual que também devia ter a ver com a época. Há muita gente que diz que aquilo é datado. Mas é engraçado que quem agora relê diz: fogo, isto é muito mais atual do que se estava a pensar.”

Segundo Miguel Moreira, esta peça não podia ir mais de encontro àquilo que é a génese do Útero. “Há questões na escrita, palavras que sempre achei físicas, e ambientes que têm muito que ver com aquilo que nós, de forma coincidente, trabalhamos”. Um certo fascínio pela dor, quase num limite sadomasoquista, e uma linguagem marcada pela sexualidade são caraterísticas que têm vindo a marcar o percurso do Útero.

O Útero funciona como um coletivo emergente e tenta esquivar-se constantemente a rótulos. “Acho que este espetáculo é uma tensão entre o sítio onde nós estamos – que é na dança – e o teatro”, explica o encenador. A partir de 2011, o Útero absorve também a influência de Romeu Runa e Sandra Rosado que acrescentam ao coletivo a sua própria personalidade criativa: “sempre que o Romeu não está presente esse virtuosismo ressente-se e nota-se que fica mais baço”. O Útero define-se em muito pelo contributo de todos os que são chamados para esse espaço comum da criação e a equipa é tão coesa que todos se completam, todos acrescentam algo, à mesma medida em que se entendem com um simples olhar, numa forma de trabalho quase orgânica.

“O Duelo” é uma peça com um lado rural muito forte que mostra o homem a equilibrar-se no meio do caos. Ao assinalar os 20 anos de existência do coletivo artístico, o teatro e a dança fundem-se para irmos aos lugares mais marginais que temos dentro de nós.

 

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