2019 EM CINCO ESCOLHAS DE 2018

Por Tiago Laranjeiro,

Economista

Nesta época de balanços, proponho-me a perspetivar o novo ano em escolhas de livros que me acompanharam ao longo de 2018.
Logo em Janeiro, ofereceram-me “Fire and Fury”, relato dos primeiros tempos de Casa Branca de Donald Trump, escrito por Michael Wolff. É um livro que perturba, pelo relato de episódios de quase “nonsense” do Presidente dos EUA. Um Presidente que foge de todos os cânones a que estamos habituados, e dos rituais tradicionais do poder. O mundo ainda se está a adaptar a ter à frente da maior potência mundial um líder do qual nunca se sabe o que esperar. Mas, nestes tempos, esta anormalidade virou o novo normal.

Sobre esta anormalidade, de reinvenção ou destruição das tradicionais estruturas de poder, recordei várias vezes o livro “O Fim do Poder”, de Moisés Naïm. A sua tese central é que “no século XXI, o poder é fácil de alcançar, difícil de usar – e fácil de perder”. Do poder político ao poder económico, a desestruturação do poder tem levado ao surgimento de novas forças, e à perda de influência de forças tradicionais, sejam os partidos, os sindicatos, as empresas, as organizações internacionais ou até as religiosas. É difícil perceber onde “está” o poder neste mundo – e em Portugal. E a insignificância da ação política tradicional, perdida nos rituais de governo, de oposição, da democracia, resvalando, na maior parte das vezes, para a mera gestão dos pequenos poderes tendo em vista apenas a sua manutenção. E como isto acontece em Portugal, em Guimarães…

Ainda sobre estas mudanças, é interessante ver como “os 1%” perspetivam o futuro da economia. Há um pequeno livro intitulado “A Quarta Revolução Industrial”, escrito por Klaus Schwab, presidente executivo do Fórum Económico Mundial (também conhecido por Fórum de Davos), e que suscita questões ainda pertinentes sobre o futuro da economia mundial.

Num tempo de rasgar cânones, em que emerge uma revolta contra o politicamente correto, está em curso um conflito social que nos EUA denominam por “culture wars”. Mas, nestas questões, é sempre melhor ir às fontes do que ficar pela rama ou o seu reflexo na imprensa (outro foco de desconfiança crescente). Um dos livros mais relevantes do ano foi o “12 Rules for Life – An Antidote for Chaos”, de Jordan B. Peterson, professor de Psicologia da Universidade de Toronto que tem corrido o mundo e enchido auditórios onde quer que vá para dar conferências longas, sem vídeos nem diapositivos. Parece antiquado, mas transformou-se rapidamente num dos mais influentes intelectuais da atualidade, com uma mensagem de responsabilização individual, recorrendo para ilustrar a sua tese a diversos arquétipos da cultura ocidental.

Mas, se ao recomendar Peterson me ponho do lado dos que acham que fomos longe de mais no “politicamente correto”, é preciso reconhecer que há problemas latentes na sociedade que não podemos desvalorizar. E em Portugal persistem graves problemas na discriminação de género. Daí a minha última recomendação, “Cassiopeia”, livro de estreia da poeta Francisca Camelo. Uma voz feminista, bem recebida pela crítica e que, como toda a literatura que é relevante, nos dá murros no estômago com poemas como “o osso invisível”, escrito a propósito do caso de violação de uma jovem em Gaia, em que os violadores foram absolvidos por haver um “clima de sedução mútua e mediana ilicitude” (o poema está publicado online na Enfermaria 6, vão ler que vale a pena).

Como naquela maldição chinesa, “vivemos tempos interessantes”.

©2021 MAIS GUIMARÃES - Super8

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?