A Grande Serpente voltou a inquietar Guimarães

À porta da Fábrica de Couros é preciso esperar que a noite caia e que a escuridade cubra a cidade para começar. Não é necessário transpor o portão, ainda fechado, para perceber que há um mundo de magia à espera de ser (re)descoberto. Os cheiros e os sons, distintos e inconfundíveis, denunciam as centenas de velas acesas e os instrumentos de percussão.

© Hugo Marcelo/Mais Guimarães

O portão, que abre e fecha constantemente, revela a azáfama e pela fresta vislumbram-se as luzes azuis que iluminam o palco. Os minutos parecem demorar mais a passar. Ainda cá fora, aglomeram-se os espetadores e há encontros e conversas que deixam perceber que na plateia vão estar caras novas ao lado de caras que sabem exatamente o que estavam a fazer 28 anos antes. E se uns talvez não soubessem o que estavam a fazer na noite de 02 de julho de 1994, outros sabem de cor: estavam a fazer exatamente o mesmo e no mesmo sítio, à espera que se abrisse o portão para a encenação d’A Grande Serpente.

O mundo era diferente em 1994, tão diferente que traçar paralelismos é até uma tarefa difícil. Nessa altura, a União Europeia era composta por 11 países e as conversações para acabar com o cerco de Sarajevo estavam a começar. Foi preciso esperar mais de uma década para o lançamento do primeiro iPhone. E se o mundo não é o mesmo de há 28 anos, tão-pouco é Guimarães. Em 1994, não havia um teleférico a ligar a cidade à Montanha da Penha, Guimarães não era Património Mundial e ainda estava longe de imaginar que eventualmente seria eleita Capital Europeia da Cultura. O Teatro Oficina ainda não tinha sido fundado e o Centro Cultural Vila Flor ainda não existia. Nessa altura, a antiga Fábrica de Curtumes Âncora – agora Fábrica de Couros e Centro de Ciência Viva – não tinha sido reabilitada. E foi nesse ano, num cenário em ruínas, que Guimarães recebeu A Grande Serpente, numa encenação de Moncho Rodriguez que inquietou a cidade.

Apesar das diferenças, há também semelhanças entre as duas noites. A reencenação do texto de Racine Santos voltou a estar a cargo de Moncho Rodriguez – que, desta vez, e como não poderia ter feito há 28 anos, assistiu a tudo por videochamada – e contou com alguns dos mesmos protagonistas. Aconteceu no mesmo dia do calendário e no mesmo sítio, embora seja assinalável que, apesar de serem as mesmas coordenadas de GPS, o cenário é completamente diferente. Depois de 28 anos, Joana – uma das personagens – voltou a transportar Guimarães para um vilarejo perdido no meio da caatinga, no nordeste brasileiro, onde paira a ameaça da chegada do diabo e de um castigo que secou o único poço que mata a sede a todas as pessoas. Os temas intemporais do poder, da sexualidade e do incesto misturam-se, agora, com os temas atuais das alterações climáticas, da escassez da água e da guerra. “A maldição está de volta”, começou por anunciar Joana à plateia. E foi assim que tudo (re)começou.

A Fábrica de Couros vai receber mais duas reencenações d’A Grande Serpente neste mês de julho. O mundo mágico deste vilarejo perdido no meio da caatinga, no nordeste brasileiro, volta a estar em Guimarães nos dias 08 (sexta-feira) e 09 (sábado) a partir das 21h30.

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