A LÍNGUA PORTUGUESA TRANSFORMADA EM “NOVILÍNGUA”

por Mário Cunha Reis

Engenheiro e Gestor
Membro da TEM/CDS – Tendência Esperança em Movimento

Na obra de ficção “1984”, George Orwell procura mostrar as “perversões” de regimes centralizados como o comunismo ou o fascismo. Descreve um super‑Estado totalitário chamado de “socialismo inglês”, no qual a vigilância é omnipresente (“Big Brother”), o revisionismo histórico e a destruição de documentos desfavoráveis é sistemático, as liberdades individuais e a liberdade de expressão são suprimidas, consideradas “crime de pensamento” e perseguidas pela “polícia do pensamento”.

Como instrumento de manipulação foi criada a “novilíngua”, um idioma fictício que, através da alteração do significado de certas palavras, substituição por outras ou pela proibição do seu uso, permite reduzir a capacidade de pensamento e comunicação. Chegou ao nosso tempo sob a forma de discurso “politicamente correcto”, adoptado devido a uma aparente preocupação com a defesa e promoção da igualdade de direitos entre mulheres e homens, a que vieram a chamar de “igualdade de género”.

A palavra “género” entrou no quotidiano para designar e substituir a palavra “sexo”, o sexo biológico de uma pessoa. Poderá parecer que tal terá acontecido por se tratar de uma palavra mais refinada. Mas não!

Foi introduzida no vocabulário político internacional, em 1995, na IV Conferência Mundial sobre a Mulher organizada pela ONU, em Pequim, por intelectuais feministas (marxistas e trotsquistas, liberais quanto à moral e liberdade sexuais), com o objectivo de desconstruir a família natural – constituída por homem e mulher, geradora de vida -, entendida por estas como a fonte de opressão na sociedade e pedra base do capitalismo.

A chamada “ideologia de género” tem vindo a impor-se de forma furtiva nas nossas vidas, através do sistemas educativo e de saúde, dos meios culturais e políticos, com forte difusão na comunicação social.

Mas o que tem isto a ver com a língua portuguesa?

Vem isto a propósito da publicação do “Regime Jurídico da Avaliação de Impacto de Género de Actos Normativos” (Lei n.º 4/2018, de 9 de Fevereiro), projecto do PS, aprovada pelo BE, CDS-PP, PEV, PAN, com a abstenção do PSD e do PCP, e que  que entrará em vigor no próximo dia 1 de Abril. Prevê que os projectos de lei, decretos-lei, regulamentos, etc. elaborados pela administração central, regional e local e propostas de lei à Assembleia da República, sejam sujeitos a “avaliação prévia de impacto de género”. O objectivo será a “diminuição dos  estereótipos de género que levam à manutenção de papéis sociais tradicionais negativos” e “assegurar a utilização de linguagem não discriminatória (…) através da neutralização ou minimização da especificação do género, através do emprego de formas inclusivas ou neutras”.

Significa isto que o Estado se prepara para combater o que identifica como “papéis sociais tradicionais negativos”, com o mesmo critério que levou em 2017 a Comissão para a Igualdade de Género a “recomendar” a retirada do mercado de blocos de actividades distintos adaptados ao gosto estético comum de meninas e meninos dos 4 aos 6 anos.

O Estado passará, portanto, a limitar e regular o uso da língua portuguesa, proibindo o de uso de certas palavras e abrindo caminho à punição para quem não o cumpra.

Assim, depois da mutilação da língua portuguesa que resultou do Acordo Ortográfico de 1990, teremos agora sucessivas amputações, retirando aos que escrevem e falam português a possibilidade de se exprimirem livremente, uma vez que a “polícia do pensamento” estará vigilante.

Exagero?

Pois bem. Importa ter presente que estas medidas estão a ser implementadas noutros países, em estado mais avançado.

Em 2015, em França foi publicado um guia que propõe a eliminação da expressão “mademoiselle”, a ordenação por ordem alfabética de termos masculinos ou femininos idênticos, como seja “senhoras e senhores” ou “igualdade homem-mulher”, e sugere a substituição no nome da “Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão” (1789) por “Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos Cidadãos e das Cidadãs”. Em 2016, a Associação Médica Britânica publicou um guia que recomenda a substituição de “mulher grávida” por “pessoa grávida”, para não ferir a susceptibilidade de “homens transgénero”. Em Julho de 2017, o Metro de Londres anunciou a substituição de “damas e cavalheiros” por “olá a todos”, para ser mais inclusivo. No Canadá, foi aprovado neste mês a alteração do hino nacional em inglês, em nome da igualdade de género.

Assim, depois de ter sido mutilada pelo Acordo Ortográfico de 1990, a língua portuguesa será agora amputada na sua riqueza vocabular e linguística, em nome de uma suposta igualdade de género, passando a ser um português mais neutro.

O autor escreve em português correcto, não reconhecendo o AO 1990.

 

1 Comentário
  1. Claudia 4 meses atrás

    Arranjando problema onde não tem…… ??? Isto é um perigo p sociedade! Ideologia de Gênero é uma crença-não-científica de que os seres humanos nascem sem gênero definido (masculino ou feminino), e que os mesmos são moldados pelos padrões da sociedade, história e cultura. “Acreditam seus defensores que os seres humanos nascem iguais e “neutros”, e que apenas depois de passarem por experiências livres, podem decidir e se definir como homens ou mulheres. Buscam argumentos nos escritos de Gramsci, Butler, Marx, Beauvoir – militantes assumidos do ideário de gênero. A palavra gênero segundo os mesmos é interpretada apenas como sinônimo do sexo atribuído pelos órgãos genitais – pênis e vagina – entendem então que ter o órgão sexual masculino, por exemplo, não faz com que a pessoa possa ser identificada obrigatoriamente como homem, e que podemos ter vários gêneros. O correto diante desta crença, seria deixar com que cada qual, em seu tempo decidisse se é homem ou mulher, masculino ou feminino, independentemente de seu gênero biológico. Esta é a linha teórica básica. Segundo a ciência, a sexualidade humana é uma característica biológica binária objetiva: “XY” e “XX” são marcadores genéticos saudáveis – e não marcadores genéticos de uma desordem. A norma da concepção humana é ser masculino ou feminino. A sexualidade humana é planejadamente binária com o propósito óbvio da reprodução e da prosperidade da nossa espécie. Esse princípio é autoevidente e lógico. As desordens extremamente raras no desenvolvimento sexual, que incluem, entre outras, a feminização testicular e a hiperplasia adrenal congênita, são todas desvios identificáveis da norma binária sexual, e são reconhecidas como “desordens da formação humana”. Indivíduos que as portam não constituem um “terceiro sexo”, segundo a ciência. A crença de uma pessoa de ser algo que ela não é, na melhor das hipóteses, é um sinal de pensamento confuso. O American College of Pediatricians diz que “Quando um menino biologicamente saudável acredita que é uma menina, ou uma menina biologicamente saudável acredita que é um menino, existe um problema psicológico objetivo, que está na mente, não no corpo, e deve ser tratado dessa forma”. Essas crianças sofrem de DISFORIA DE GÊNERO, formalmente conhecida como transtorno de identidade de gênero, uma desordem mental reconhecida na edição mais recente do Manual Diagnóstico e Estatístico da American Psychiatric Association.
    Na minha visão ninguém nasce com um gênero, mas todos nascem com um sexo biológico que gera consequências químicas e comportamentais que independem do contato social. A autoconsciência, que seria um senso de si mesmo amadurece com o tempo em todo processo de desenvolvimento, e pode sim ser prejudicada por percepções subjetivas da criança, traumas, relacionamentos e experiências adversas desde a realidade intrauterina até o fim da adolescência. Mas independente disso, permanecemos biologicamente sendo homens e mulheres, e com as consequências hormonais, físicas e neuronais de cada tipo.
    Estudos científicos em neurociência apontam claramente há décadas que existem claríssimas diferenças anatômicas e funcionais entre o cérebro de um homem e de uma mulher. Os estudos mostram com imagens de ressonância magnética funcional estas diferenças nos cérebros e suas peculiaridades e diferenças cognitivas na vida prática. Exemplo de estruturas diferentes: junção temporo-pariental, sulco temporal superior direito, córtex somatosensorial, regiões do hipotálamo e amígdala cerebral. Todas estas estruturas são responsáveis por gerenciamento de crenças, significados, humor, desejos, reatividade, etc. E são diferentes entre homens e mulheres e alteram as suas diferentes habilidades, preferências e comportamentos. Isso demonstra que a biologia tem uma força significativa na construção e forma de expressão do gênero. Estudos com Primatas mostram que machos escolhem brinquedos tipicamente masculinos e fêmeas escolhem brinquedos tidos como femininos. São Primatas – não há cultura neste caso, portanto esta espontaneidade não depende de fatores culturais, religiosos ou sociais. Uma grande falta de informação ou de boa-fé é a confusão entre identidade de gênero e orientação sexual. Coisas que são diferentes, mas usadas de forma associada tendo em vista promover a ideologia de gênero no mesmo patamar de outras causas com respaldo científico, moral e social. Tirando a palavra “ideologia”, que define um movimento organizado, vamos alterar por “identidade” que é algo mais concreto para entendimento. IDENTIDADE DE GÊNERO significa que um ser do sexo masculino biológico pode ter uma essência feminina e vice-versa. A preferência sexual escolhida é outra coisa bem diferente e diversa, como o bissexualismo, pansexualismo, assexualismo e muitas outras. Identidade de gênero tem a ver com transexuais, por exemplo, que são pessoas que na angustia de se sentirem não pertencentes ao gênero biológico passam por intervenções químicas, cirúrgicas e medicamentosas para conseguir adaptar os seus corpos às suas “almas”. Identidade de gênero é algo sério e real, que merece atenção, cuidado, isenção de pré-conceitos e muito respeito. O problema começa quando se cria um movimento chamado – “ideologia de gênero”, e a expressão é antecedida pela palavra “promoção”. Promover significa viabilizar, usar de recursos de convencimento para elevar a categoria superior uma ideia, produto ou crença. Uma coisa é sabermos que existem conflitos de identidade de gênero que acontecem com crianças e adolescentes – Outra coisa é publicitar uma ideologia nas escolas, para crianças que não passam por nenhuma inadequação de gênero e gerar um grande problema onde antes não existia – Não temos uma equipe de saúde mental e comportamental para atender ao caos que gerar confusão em quem não tem causaria. Crianças e adolescentes adoram uma moda, adoram a desobediência. As escolas já estão correndo atrás do prejuízo com problemas de falta de estrutura e educação familiar, divergências religiosas, diagnósticos verdadeiros e falsos de TDAH, transtorno opositor, dislexia… agora vão precisar se pre-ocupar com o efeito colateral de gerar esta possibilidade e dúvida na cabeça de suas crianças por conta de uma ideologia-não-científica que se utiliza de uma questão séria que é a identidade de gênero, para se promover como forma de luta e revolta contra instituições ditas burguesas, nos quais seus pensadores de base lutavam contra. Não temos professores preparados para isto. Não temos uma equipe de saúde mental e comportamental para atender ao caos que gerar confusão em quem não tem causaria. Seria como, por saber que 3% da população mundial tem ou terá esquizofrenia, criar um movimento para informar às crianças sobre alucinação, delírios, ouvir vozes, ver monstros e coisas estranhas – e dizer que isso pode acontecer com elas e seus coleguinhas a título de informação. O que aconteceria? Várias crianças vão passar a dizer que escutam vozes, que veem espíritos e muitas vão começar a delirar e se sentir observadas e perseguidas. Crianças associam tudo como sendo pertencente a elas, e nesta fase de imaginação plena somatizam em comportamentos tudo o que as cerca. Acredito que quem estimula a ideologia de gênero deveria estudar mais sobre forma de aprendizado de crianças, sistema cognitivo, etc. – Maldade ou desinformação? Vamos a exemplos práticos. Na Suécia por exemplo, país de primeiro mundo onde a ideologia de gênero avançou muito e atingiu as escolas, tivemos um aumento de 40% nas taxas de suicídio e um declínio na qualidade social e psicológica de sua população. É sabido também que a chance de uma pessoa que trocou de sexo venha cometer suicídio é 20 X maior do que a população em geral. Isto são dados estatísticos disponíveis de fontes científicas, e não, crenças-ideológicas. O manual de sexualidade e psicologia da Associação Americana informa que 75% a 95% das crianças e adolescentes que expressam algum tipo de confusão sobre a sua identidade sexual a superam naturalmente. E isso é de extrema verdade visível no dia a dia – é comum pensamentos bissexuais, assexuais, homossexuais e heterossexuais – logo após a puberdade existe uma associação a uma opção, e que deve ser respeitada e jamais vista como uma anormalidade, salvo se causar sofrimento, o que necessitaria de apoio psicológico, familiar e humano. Mas afirmar que discutir identidade de gênero tem cujo objetivo feminizar meninos, transformar as meninas em lésbicas e destruir a família, é tão irresponsável como a sua promoção. Discriminação sexual é algo abominável, criminoso, assim como promover esta ideologia parece ser. Atentar contra a formação de identidade de uma criança com uma ideologia que não tem respaldo científico é atentar contra a Humanidade. É pôr em risco a saúde mental das pessoas. Acabar com o preconceito contra os ainda vistos diferentes, construir relações de gênero mais justas e ressignificar as práticas sociais por meio da construção de uma cultura de paz é um dever de todos nós. Porém, a natureza impositiva dessa ideologia e seus outros interesses conhecidos, mas não declarados, acabam atentando contra a primazia da educação das crianças. Acredito que se deva trabalhar os problemas de identidade de gênero na medida que eles surjam. Informando sem imposição aos pais sobre tudo isto, treinando professores em relação a este fato – mas jamais com este movimento, no momento crucial de desenvolvimento de nossos filhos. Família educa, escola instrui. Mesmo que existam falhas enormes na educação. O plano óbvio é que no ambiente da escola, com militantes politizados e professores “obrigados” a promoverem a ideologia, estas ideias sejam absorvidas com vigor e promovam uma revolução perigosa, mas exatamente como desejavam os pensadores-não-cientista que servem como base ideológica para este discurso. Não há nenhuma base científica que sustente a crença dos ideólogos de gênero, a não ser seus pensadores de base – filósofos da sociedade. Não devemos, pois, estimular que a mesma seja inclusa para crianças apenas por ser uma filosofia com calda de sorvete bonita, mas sorvete interno sem forma concreta. Problemas com identidade de gênero são problemas. Levam ao sofrimento, confusão, baixa-estima, ideação suicida e intensa angústia e devem ser tratados com amparo, apoio familiar, estratégia e amor. Discordo completamente da visão limitada de se entender que o Ser Humano nasce como folha em branco e que todos os traços de sua personalidade virão do contato externo. Temos uma outra ciência, a epigenética que nos auxilia a entender que trazemos cargas de antepassados que são lidas e modificam a leitura de nosso DNA. O próprio Projeto Genoma mapeou 40 mil genes na tentativa de montar um mapa do Ser, e chegou à própria conclusão que existe um fator subjetivo, que eles não conseguiram mensurar, que ‘liga tudo” e não está no gene. Algo como uma personalidade congênita que já traz informações, gostos, tendências e conflitos. Reduzir o Ser, a um papel em branco como buscam os defensores da ideologia de género é ir na contramão de todos os avanços em compreender a complexidade da formação da personalidade humana. Nossas escolas não são laboratórios e nossas crianças não são cobaias. Nossa educação não pode ser um experimento que é justamente o que falta à ideologia de gênero.” (Este foi tirado de um artigo do Dr. Jordan Campos – Psicoterapeuta Transpessoal Sistêmico– psicoterapeuta também de crianças e adolescentes, pai de quatro filhos e um professor dedicado.)

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