A MURALHA… DOIS PROJECTOS!!!

por  Vítor Ferreira

Engenheiro

Um, que se renova todos os anos, entre Junho e Setembro, que espero ansioso que recomece, que me faz olhá-la sempre de “uma maneira nova”, em pequenos instantes, em diversos pontos… uma ameia… um buraco, aconchego da andorinha… uma pedra, bem aparelhada, onde pressinto o cheiro do suor de quem a aparelhou…

Para a memória descritiva deste projecto peço emprestado ao Miguel Esteves Cardoso a sua crónica “Como usar os Olhos”, publicada recentemente no jornal Público.

São andorinhas-das-chaminés. Têm a cauda tão forcada que parecem duas caudas negras e finas – ou duas setas que indicam a quem as admira a direcção que os nossos olhos devem seguir.

Os voos delas são mirabolantes. Mostram que não há trajectos impossíveis. Mostram que cada velocidade tem o seu prazer porque estão sempre a acelerar e a abrandar, mudando de opinião de dois em dois segundos.

Fazem tudo de repente. De repente travam e voam lentamente, parecendo apreciar a vista ou o momento. De repente tombam e voam rente à areia admirando o voo das próprias sombras e prendendo os insectos alados cuja missão na vida é parasitar os veraneantes. Nunca tivemos aliadas tão bonitas e fatais.

São imperdíveis. É impossível não as ver. Elas são exibicionistas descaradas mas são exibicionistas com razão. Sabem que são acrobatas magníficas a fazer um trabalho sublime que exige ser presenciado.

Atravessam-se à nossa frente e interrompem a nossa banalidade: “Ó tu que vais tão cabisbaixo a apalpar o saco à procura das chaves, dás-me licença que te mostre um milagre digno de se ver? Tu que gostas tanto de ver humanos a dar pontapés na bola, observa bem o que eu consigo fazer sem bola, sem camisola, só com aquilo com que nasci”.

Segui-las é olhar de uma maneira nova: ver o mar só dois segundos, o casario durante três, depois a estrada, uma janela, uma chaminé, a areia, a serra, o céu, mais areia, o mar, mais céu, um relance pelas telhas. Quem me ensinou a ver esta praia foi uma caçadora do céu.

O outro, passadiço para turistas, que em fila indiana irão… aos tropeções, tirar as suas selfie que enviarão instantaneamente para os seus amigos… amigos dos amigos… e sucessivamente…

Desconheço a memória descritiva deste outro projecto mas se, por um acaso, tiver a alma, emoção e o deslumbramento da primeira, conformar-me-ei.

 

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