A nebulosa estética

Por André Veríssimo,
Empresário, Investigador Universitário, Ensaísta

Talvez possamos inferir que uma sociedade crescentemente complexa (ou “abstracta”, na expressão de Popper, que formalmente não mais se fundamenta sobre laços pessoalmente estabelecidos entre os seus membros), ou é cada vez mais mercantil, ou cada vez mais violenta. Como observa Weber, “a expansão intensa das relações de troca corre por toda parte paralela a uma pacificação relativa”. (WEBER, 1991: 422) Mas essa ordem crescentemente pacificada será – de maneira paradoxal, mas aparentemente inevitável – cada vez mais “fria”, ou “impessoal”… Talvez precisamente por reacção a este processo é que se explique a longa persistência do romantismo como movimento culturalmente relevante durante toda a modernidade – “perhaps the most important Western cultural movement of the modern period”, como diz Edward Tiryakian, (TIRYAKIAN, E., S/N: 84-5), que o caracteriza como instância de um processo de “reencantamento”, paralelo ao “desencantamento” identificado por Weber, e alimentado mesmo por este último.

Retomando o nosso paradigma estético: assim como a cultura de massas, o cinema digital pode ser monstruoso ou amigável, de acordo com as convicções estéticas e ideológicas de cada um, mas a sua existência não poderá ser negada.

A nebulosa não é apenas estética/tecnológica. Ao mesmo tempo que realizadores e críticos tentam caracterizar as diferenças entre o cinema tradicional e o que está surgindo anunciando o apocalipse ou a manhã de uma nova era -, teóricos de várias áreas constatam a inequívoca sobreposição dos cenários, para depois avaliar se estamos a viver uma ruptura, uma acomodação ou uma lenta metamorfose.

Uma qualquer revolução media-lógica não afecta, fundamentalmente os códigos linguísticos existentes (a tipografia não modificou a sintaxe ou o vocabulário do francês): também não elimina os outros modos de transmissão (do século XVI), as pessoas continuam a fazer sermões e a escrever à mão.

As constatações de que a produção audiovisual narrativa não sofrerá um impacto tão grande assim, ou que o novo caminhará ao lado do “velho” por alguns anos, não devem impedir, contudo, que se estudem as variantes que a tecnologia digital oferece. Fazer cinema, sem dúvida, hoje pode ser muito diferente do que era há vinte anos. A pergunta é: essas variantes chegam a interferir na estrutura da linguagem televisiva, a ponto de criar novos significantes, novas articulações semânticas e, em última análise uma nova linguagem?

Cairemos, então, inapelavelmente, numa questão mais antiga: cinema e televisão (ou vídeo) são linguagens diferentes? Se a resposta é não, podemos esquecer o embate entre cinema analógico e digital, pois entre estes a diferenciação é (unanimemente) mais subtil. Se a resposta, contudo, é sim, abre-se o campo para a batalha.

Umberto Eco disse o essencial: a indústria cultural é uma realidade indesmentível e indestrutível (ECO, U., 1999). Está aí e veio para ficar. O mais saudável, portanto, é encontrar estratégias de convivência com ela.

É preciso ressaltar que, durante a civilização industrial, a grande divisão não era entre países capitalistas e países socialistas, mas, sim, entre países industrializados e países não industrializados. As diferenças entre dois países industrializados, mesmo que um seja capitalista e outro socialista, são bem menores do que as diferenças entre um país industrializado e um país não-industrializado, não importa se sejam capitalistas ou socialistas. De igual forma, a grande divisão será entre países, ou, melhor dizendo, regiões da terceira vaga (Toffler).

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