A nova normalidade

Por Francisco de Oliveira,
Pároco em Urgezes, Guimarães

A escritora e ativista indiana, Arendhati Roy, questionada pelo Expresso como percebia e o que lhe sugeria este mundo trancado em casa, respondeu: “No início senti que era um momento que não se irá repetir. Ouvir os pássaros, ouvir o silêncio à nossa volta obriga ao confronto com nós mesmos. Depois, ao ver a angústia que a doença está a causar em toda a parte e o exercício do poder dos governos sobre as pessoas, tudo me parece aterrador. Os seres humanos vão ser postos perante uma escolha. Vão ter de pensar se querem submeter a sua liberdade, escravizar o espírito da raça humana, ser controlados ao ponto de alguém saber sempre onde estão e com quem falaram, o que comeram ou compraram e ao lado de quem se sentaram. Não sei se consigo viver assim. Acho-o humilhante”. O medo torna-se, cada vez mais, a grande infeção, que infetou a psique coletiva, e a horda de defensores da vigilância electrónica dos cidadãos. As distopias, por mais inimagináveis que nos tenham parecido, estão em marcha acelerada para a sua concretização. E, como Arendhati, estou seriamente preocupado. E porquê? Porque prezo antes de tudo e acima de tudo, a liberdade como valor maior da democracia. Entendendo por liberdade a responsabilidade individual e coletiva de cada um de nós.

Certo é que a democracia enfrenta hoje os mais baixos níveis de satisfação em décadas. Uma das razões para essa insatisfação é a perceção de que é ineficaz a enfrentar alguns dos principais problemas que enfrentamos. A Covid-19, como num artigo de 14 de Março refelete Poiares Maduro, desencadeou um encantamento no mundo ocidental, no qual prevalece a democracia liberal, pela China totalitária. Ou como escreveu o mesmo mais à frente no artigo citado – “Em tempos de crise, o apelo de um poder forte aumenta. Precisamente aquilo que os populistas têm defendido”. Quer na extrema-direita, quer na extrema-esquerda, ou, mais grave ainda, em áreas políticas que identificamos com os valores democratas. Estes são os tempos em que o chuveiro informativo se confunde com conhecimento, levando os cidadãos a convencerem-se que estão habilitados para avaliar tudo aquilo sobre que se informam (eu vi na televisão, eu li no facebook e outras fontes do género). Como nos ensinou Zygmunt Bauman, nestes tempos de amor líquido/modernidade líquida (onde nada parece ter consistência), na diversidade de formas da vida moderna, mas todas tendo em comum a temporalidade e fragilidade, a vulnerabilidade e temporalidade, tudo envolvido numa mutação constante, perante o risco e a insegurança lidamos muito mal e facilmente deslizamos para soluções autoritárias. Tudo agravado pelos recursos limitados. Onde encontraremos a resposta? Talvez naquilo que, segundo Noah Harari, nos distingue dos outros animais: a cooperação que nos tem permitido ao longo dos séculos responder a inúmeros desafios de maior incerteza e risco.

Onde está a famosa ética republicana, não no sentido de um regime (República versus Monarquia), mas o valor maior da coisa pública (Res-Pública) que os indivíduos livremente contratam e estabelecem entre si construindo comunidade (Cidade). O estado de vigilância que alguns propõem nesta nova normalidade traz-me à memória o pior do século XX: o século de todas as promessas e de todos os infernos. Ou na expressão de Karl Popper – “A tentativa de assentar o céu sobre a terra produz sempre o inferno”. Michel Houellebecq na E – A Revista do Expresso (20.06.2020), no seu estilo sui generis, recorda-nos a sua descrença em declarações do género nada voltará a ser como dantes, afirmando precisamente o contrário – “tudo continuará exatamente parecido” – e que o desenrolar desta epidemia confirma. “O Ocidente não está cá para a eternidade, por direito divino, como a zona mais rica e mais desenvolvida do mundo; tudo isso acabou, já há algum tempo, não é novidade nenhuma. (…). // O coronavírus, pelo contrário, deverá ter como principal resultado acelerar certas mutações em curso. // Não despertaremos, depois do confinamento, num novo mundo; será o mesmo, em ligeiramente pior”. Viver em liberdade tem sempre riscos, e é sempre mais fácil acantonar do que educar para a responsabilidade (o nome maior da liberdade). Ora, todos sabemos que uma sociedade que não aceita este risco chamado liberdade é uma sociedade potencialmente autoritária que interrompe vidas (em nome do que muito bem entende, como por exemplo, a Covid-19) de serem realizadas com responsabilidade. Razão tinha, o agora injustiçado, Winston Churchill – “O essencial da democracia é saber que se de madrugada alguém me acordar é a leiteira”. Estamos entre a democracia como a conhecemos na Europa ocidental e o autoritarismo da República Popular da China (os comunistas mais capitalistas que os capitalistas ocidentais). Ou talvez a preocupação de Rodrigo García no The New York Times nos tranquilize – “Muitos têm a certeza de que a vida nunca mais será a mesma. É provável que alguns de nós façamos grandes mudanças e outros pequenas mudanças, mas suspeito que a maioria voltará ao baile. (…) // Ainda estou num nevoeiro. (…) // Entretanto, o planeta continua a girar e a vida continua misteriosa, poderosa e surpreendente. Ou, como costumavas dizer (refere-se ao pai, Gabriel García Márquez, que a 17 de Abril celebrava o 6º aniversário da sua morte), com menos adjectivos e mais poesia, nada ensina nada à vida”. Nova normalidade tem o odor dos fascismos.

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