A política da emoção

Por Tiago Laranjeiro

George Floyd. Racismo. Abuso. Polícia Bom é Polícia Morto. Antifa. Alt-right. Alternos. Feed. Algoritmos. Shares. Likes. Raiva. Black Lives Matter. White Lives Matter. All Lives Matter. Pride. Orgulho Branco. Política de Identidade. Biopolítica. Nação. Fronteiras. Imigrantes. Alá. Deus. Pátria. Família. Mulher. Burka. Violação. Queer. Trans. Tinder. IRA. Covid-19. Tracing Apps. Estado policial. Estado Social. Crise. Desemprego. Austeridade. Orçamento. Impostos. Eco-. Aquecimento Global. Alterações Climáticas.

A lista podia continuar. Palavras. Conceitos destes tempos, com os quais nos relacionamos de diferentes maneiras, com os quais nos identificamos. E que despertam em muitos reações extremadas. Política – daquela a sério, a que mexe com a vida das pessoas. Conceitos que são apropriados politicamente e usados, com variantes, por diferentes quadrantes e forças.

Para uns, são causas de vida. Para outros, causa de medo. Para uns e outros, geram emoções fortes. E a sua exploração política gera resultados. Uns identificam-se, outros rejeitam afirmativamente, gerando pólos extremos e contrários de reações.

Este raciocínio pode parecer elementar, mas faz cada vez mais parte do nosso quotidiano. No mês de Maio vimos uma explosão social nos Estados Unidos, com um caso extremo de violência policial com motivações racistas. A onda de reações correu o mundo. Primeiro com uma forte reação de manifestantes antirracistas, que também se fez por cá. Essas reações geraram uma corrente de relativização do caso, em que muitos se esforçaram por salientar atenuantes, circunstâncias, dados estatísticos sobre violência policial sobre “brancos”. Vi esta relativização acontecer principalmente nas redes sociais, mas altos responsáveis políticos esforçaram-se por salientar que “Portugal não é racista” nos meios de comunicação. Uma expressão que serviu de mote para a primeira manifestação de dimensão considerável do Chega, uma força política populista (para já). Aqui, chegamos às portas da negação.

O problema é que, desta exploração das emoções à eclosão da violência é um pequeno passo. Um pequeno passo que é o atravessar de uma linha ténue, entre o que está certo e o que está errado. Entre o bem e o mal. Sejamos honestos connosco próprios: todos contemos dentro de nós sentimentos negativos e ímpetos de pequenas maldades. Mas são coisas que, em geral, contemos. Pela via dos relativismos, dos ses, dos mas e das nuances, o que estava contido passa a ganhar expressão pública. O ressentimento passa a ter uma voz, neste caso pública e política, na Assembleia da República e nas ruas. Da ação pelo voto à ação direta, a distância não é grande. Alegarão a necessidade de “dar voz ao sentimento de uma maioria de portugueses”, depois enquadrarão a violência como uma ação de franjas extremistas.

Nalgum momento teremos de decidir o limite do que aceitamos como sociedade aberta e democrática. Não creio que esse limite tenha chegado. Mas, pela primeira vez, vejo-o aproximar-se.

Hoje, o mote foi George Floyd, e a condenação do seu assassínio ou a sua relativização. Ontem, Alcindo Monteiro. Mas podíamos falar de Gisberta. Ou do ódio latente aos ciganos (a única minoria visível por todo o território nacional, facto a que não será alheio o ódio que gera). De que lado dessa fronteira quer estar?

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