Agricultores desesperam com falta de água e aumento dos custos de produção

Finalmente caíram as primeiras chuvas do ano, na semana passada, mas a seca que se faz sentir em Guimarães, bem como em todo o território nacional, está longe de ser o único problema dos agricultores e produtores vimaranenses.

A escassez de água está a afetar muito as produções e, caso não chova de modo considerável nas próximas semanas, não será possível reverter a situação.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

A verdade é que o mês de fevereiro foi atípico quando comparado com os outros anos. Artur Castro, gerente da Cooperativa Agrícola de Guimarães, admite que “a escassez de água condicionou o crescimento das forragens, que estão mais pequenas e mais queimadas que o normal devido à geada”. O responsável admite que, “se não houver uma reversão em termos climáticos, os agricultores vão deparar-se com mais dificuldades”.

Até ao momento, grande parte deles (dos agricultores) ainda não sentiu a necessidade de reduzir drasticamente as regas. O que é certo, diz, é que tudo depende das explorações. Na zona do Minho, a cultura do milho é aquela que exige mais rega, e caso a seca continue, os agricultores vão pagar a fatura no próximo ano, uma vez que os solos mais secos vão obrigar a disparar o consumo de água e também de combustível.

Por outro lado, “as explorações agrícolas que trabalham com forragens verdes, cuja quantidade diminuiu significativamente, vão sentir os efeitos da seca muito mais rapidamente do que aqueles que trabalham com forragens conservadas, que só no próximo ano conhecerão as consequências”, explica o responsável.

Ainda assim, a escassez de água vai trazer consequências a curto e médio prazo. O aumento dos custos de produção ascende os 35%, o que está a preocupar seriamente o setor.

“No caso do gasóleo, das rações e dos adubos, registou-se um aumento que classifico como desmesurado. A maior parte dos produtos de adubo subiram para o dobro do preço. Já o gasóleo e as rações aumentaram cerca de 30%”, detalha Artur Castro, acrescentando que “são valores demasiado altos quando comparados com o aumento do preço daquilo que os agricultores vendem, que só aumentou cerca de 10%”.

©Direitos Reservados

Este aumento de preços “choca os agricultores e não há dúvida de que muitos já ponderam abandonar o setor”. É precisamente o exemplo de Augusto Oliveira, produtor de leite, natural da freguesia de Sande, que diz estar “a sentir na pele o que é perder dinheiro”.

Ao Mais Guimarães, Augusto Oliveira começa por explicar que “o pasto está muito pequeno devido à seca” e que o problema só poderá ser resolvido com recurso a adubos “que estão demasiado caros”. O produtor admite que, se a chuva regressar nos próximos dias, ainda vai ser possível retomar a atividade normal.

“Aumento não chega à carteira dos produtores”

Augusto Oliveira

No seu caso específico, o problema está “essencialmente nos preços praticados”, acrescentando que “tudo sobe à exceção do preço do leite”. Assim, apesar dos consumidores finais notarem o leite mais caro nas prateleiras do supermercado, a verdade é que esse aumento “não chega à carteira dos produtores”. Pelo contrário, fica retido em hipermercados, distribuidoras, bem como em outras entidades que estabelecem o elo entre os produtores e consumidores.

Augusto Oliveira corrobora os dados avançados pela Cooperativa Agrícola e reitera que os “aumentos de quase 35% são insustentáveis”, e que “só fazem aumentar o prejuízo”.

Apesar do setor agrícola ser a sua vida, e de querer manter a atividade, a verdade é que também Augusto Oliveira não hesita na resposta quando questionado se pondera suspender a produção e abandonar o setor. “As consequências estão à vista. Muitas empresas vão certamente fechar e eu também pondero isso. Não vamos aguentar”, finaliza.

Neste final do mês de fevereiro, o sol e o bom tempo estão de regresso, ao contrário do que era o desejo dos agricultores e produtores. O setor está longe de conseguir as condições que diz precisar para manter o negócio a funcionar.

Vimágua não regista dificuldades

As captações de água da Vimágua são realizadas essencialmente no Rio Ave e, até ao momento, “não há registo de dificuldades”, explicou ao Mais Guimarães Armindo Costa e Silva, presidente do conselho de administração da empresa responsável pela água e saneamento nos concelhos de Guimarães e Vizela.

“A montante das nossas captações, a Barragem do Ermal, que é a principal albufeira, apresenta um nível de reserva inferior à média dos últimos anos. Ainda assim, tem garantido um caudal ecológico que faz com que não tenhamos tido qualquer problema e também não antevemos dificuldades no que à captação de água diz respeito”, esclarece o responsável.

Armindo Costa e Silva / © Direitos Reservados

Relativamente aos períodos de seca que o país tem atravessado, Armindo Costa e Silva refere que “existe a expectativa de que ainda irá chover e que os níveis da albufeira irão subir”. Atualmente, as albufeiras em situação mais crítica são as do Lindoso e Barlavento Algarvio, com níveis de reserva inferiores a 20%, contrariando a Barragem do Ermal com uma capacidade de reserva superior a 40%.

O presidente da Vimágua esclarece ainda que “a média nesta altura do ano é de 74%, ou seja, estamos bastante aquém dos últimos anos”. Porém, não é caso único. Aliás, “durante a última década registaram-se períodos de seca similares aquele que estamos a vivenciar hoje, mas a precipitação acabou por repor os níveis habituais do caudal ecológico do Rio Ave. Por consequência, nunca foi posto em causa a captação e distribuição de água aos concelhos de Guimarães e Vizela”, conclui.

No que às perdas de água diz respeito, que em 2019 representavam cerca de 35%, o presidente da Vimágua esclarece que “combatê-las é sempre uma prioridade”.

 “Temos valores que, para nós, são insatisfatórios e pretendemos melhorá-los”, admite Armindo Costa e Silva, esclarecendo ainda que “a vasta extensão de condutas de água, de 1.360 quilómetros (o equivalente a ir e voltar ao Algarve) faz com que o controlo das perdas nem sempre seja tarefa fácil”.

Para isso, adianta, nos últimos anos foram feitos um conjunto de investimentos que visam controlar e reduzir substancialmente o volume de perdas através da criação de zonas de monitorização.

“Atualmente, toda a rede de água está segmentada para os serviços técnicos tenham conhecimento, em tempo real, do caudal que está a passar numa determinada zona. Desta forma, qualquer desvio que haja ao padrão habitual pode significar uma fuga de água e assim que esse alerta é recebido há, de imediato, uma mobilização de recursos humanos e maquinaria para o resolver”, diz Armindo da Costa e Silva.

Tratam-se de “medidas estratégicas para que a deteção e respetiva intervenção sejam feitas o mais precocemente possível”. A par disto, foi ainda criada Divisão de Gestão de Ativos na Vimágua que atua no combate às fugas de água ocultas.

©2022 MAIS GUIMARÃES - Super8

Publicidade

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?