ANDRÉ COELHO LIMA: “DESCREVO ESTE GOVERNO COMO UM DOS MAIS INCOMPETENTES DA DEMOCRACIA PORTUGUESA”

Tem 45 anos, fez parte de inúmeras associações vimaranenses. Foi candidato à Câmara Municipal de Guimarães por duas ocasiões, deputado municipal entre 2001 e 2009, ano a partir do qual começou a desempenhar o papel de vereador. O convite para ser cabeça de lista distrital pelo PSD desperta-lhe um sentimento “agridoce”. André Coelho Lima reconhece que as tensões dentro do PSD podem influenciar o eleitorado.

@João Bastos/ Mais Guimarães

Foi candidato à Câmara Municipal de Guimarães em duas ocasiões, para além de deputado municipal, líder do PSD Guimarães e vereador. Encabeçar a lista pelo distrito de Braga às legislativas é um passo lógico ou fruto de um acaso?

Parte, claramente, desse acaso. Aparentemente, para quem vê do exterior, parece uma sequência lógica, uma progressão muito programa, mas não. Fui convidado para ser mandatário do Doutor Rui Rio em janeiro de 2018, logo a seguir às autárquicas. Foi apenas uma coincidência. As próprias eleições do PSD foram uma coincidência, porque se não tivessem sido antecipadas, não teriam sido nessa altura. Surgiu o convite para ser mandatário na altura. Depois, fui convidado para integrar a comissão de politica nacional do PSD, que também não foi automático. É um processo natural. Acho que devemos ser na política o que somos na vida. Limito-me a ser eu próprio. A política foi sempre, para mim, um hobby muito intenso, uma paixão. É provisório: o país chama por nós e nós dizemos “presentes”.

Sendo na política o que é na vida, como encarou o convite para este?

A resposta é: agridoce. Há a vertente pessoal e profissional. É um grande orgulho, é uma grande oportunidade, mas, sobretudo, uma grande responsabilidade. Confesso que nunca pensei ser convidado para uma função destas. Agarrei isto como oportunidade, como uma forma de afirmação de Guimarães. O concelho nunca tinha tido um cabeça de lista — nem no PS nem no PSD. Nunca os nossos quadros foram vistos como tendo essa possibilidade até hoje, desde que há eleições. Aconteceu com o PSD e comigo, agora com o PS e a Sónia Fertuzinhos. Orgulhou-me muito, este convite. Mais do que por qualquer tipo de realização pessoal. Mas tudo tem uma dimensão pessoal. Tenho a minha vida montada nesta cidade, as minhas dinâmicas estão ligadas a esta cidade. Gosto da minha vida como a tenho. Do ponto de vista pessoal, vai implicar um sacrifício grande da minha parte, da minha mulher e da minha família, a minha prioridade na vida.

@João Bastos/ Mais Guimarães

O cabeça de lista por Braga do partido Aliança, Luís Cirilo Carvalho, disse que se desvinculou do PSD por não se identificar com o partido. O que pensa do surgimento do Aliança neste contexto?

Sobre as razões do Luís Cirilo não faço declarações. Terá os seus motivos. O partido Aliança é fundado por uma pessoa que se candidatou à presidência do PSD seis meses antes de o fundar. Não há maior demonstração de oportunismo político e de salvação de carreira. O Aliança não vem ocupar um espaço ideológico, não vem corresponder aos anseios da população. Vem, sim, porque o Dr. Santana Lopes perdeu as eleições para a presidência do PSD e, passados seis meses, fundou um partido. Se isto tivesse adesão à verdade, nem Santana Lopes se tinha candidatado ao PSD nem o Luís Cirilo tinha sido o seu diretor de campanha nacional. Até me custa estar a responder a duas questões numa só. O Aliança é um projeto pessoal e não político.


As sondagens mais recentes apontam para uma “queda livre” do PSD. Por outro lado, o PS estará perto da maioria. Pensa que estas previsões podem refletir a ideia que as pessoas vão construindo a partir das tensões dentro do PSD? Ou se, por outro lado, as sondagens indicam uma boa imagem dos socialistas?

Primeiro, as sondagens, não as desvalorizando, são elementos fortemente condicionadores da opinião pública. É algo que devia ser visto com maior atenção. Era preciso uma aferição do rigor das sondagens que antecedem os atos eleitorais. É evidente que a disputa interna pelo poder e a forma como as pessoas que perderam as eleições internas no PSD não souberam nunca respeitar esse resultado são algumas das grandes razões pelas quais, naturalmente, o eleitor médio olha para o PSD e vê a convulsão interna, não aderindo ao partido. Isto também é revelador do que esteve por detrás da candidatura do Dr. Santana Lopes. É curioso que o Dr. Santana Lopes tenha sido candidato à presidência do PSD, fundado um partido e, mesmo assim, as tensões internas continuaram. É um problema que nos levou a voltar para dentro mais vezes do que queríamos. E, depois, as expetativas para este Governo eram tão baixas que as pessoas viam qualquer coisa como positivo. De facto, há uma coisa que temos de reconhecer: este Governo assegurou estabilidade governativa. Foi um erro ter dito que não seria possível, mas foi dito. Se quer que lhe diga, os eleitores estão a premiar isso mesmo. Manteve-se o país em estabilidade e as coisas decorreram com aparente normalidade. Em boa parte, a junção de dois fatores explica: há um Governo com estabilidade governativa e uma alternativa com alguma convulsão. Isso pode explicar os valores das sondagens. A verdade é que temos de dizer aos portugueses a verdade. Foi prometido aos portugueses que vinha este Governo para reduzir impostos contra um que os aumentou. Mentira: a carga fiscal está nos máximos históricos. Mas baixou-se os impostos diretos, nomeadamente o IRS. Mas o imposto que se pagam e se vê aumentou. É uma hipocrisia politica por parte deste governo: o Imposto sobre Produtos Petrolíferos foi mexido. É um imposto socialmente cego; ou seja, o rico e o pobre pagam igual. Mas nenhum sente, e o IRS toda a gente sente. É injusto premiar, com gratidão popular, quem governou dando a quem mais tem e tirando a quem menos tem – é exatamente isto. Custa-me que se premeie uma atuação quase maquiavélica. Os cortes que foram operados, os aumentos, tudo isto, foram em cumprimento de um programa negociado e aprovado pelo PS, mas também pelo PSD e CDS, que não estavam no poder. Descrevo este Governo como um dos mais incompetentes da democracia portuguesa. O Serviço Nacional de Saúde está um caos absurdo, os transportes como nunca os tivemos antes. Em Guimarães, a situação calamitosa dos serviços de notariado. E dizer que este anúncio de que vão avançar as obras da oncologia pediátrica do Hospital de São João é um anúncio que me envergonha. Porque as obras de requalificação já eram urgentes há seis ou sete anos. Este governo disse que as ia fazer de imediato e disse dez vezes que as ia avançar. Agora, sem vergonha, a um mês das eleições, vão avançar para daqui a seis meses. E na política não vale tudo. Neste anúncio, foram ultrapassados os limites do que se deve fazer.

Falou da questão dos serviços de registos e notariado de Guimarães. Que outras questões do concelho e do distrito de Braga poderá levar ao Parlamento, sendo eleito?

Há uma coisa que é óbvia: um deputado da assembleia nem sequer do distrito é. É do país. Não quero enganar as pessoas. Lá temos um programa do partido para cumprir. Disto isto, sem imodéstia, penso que posso dizer que conheço muito bem a realidade vimaranense. Mas também quero dizer que é à Câmara Municipal que compete tratar da defesa da comunidade. E eu vou continuar, na medida do possível, a exercer a função de vereador e não quero perder a ligação com a minha terra. Portanto, à Câmara de Guimarães compete lançar aquelas que são as ambições da comunidade. Vou, como deputado, estar disponível para ajudar. Tenho responsabilidade como vimaranense de lutar pelas propostas que concordar. É um patamar diferente, complementar ao municipal. É sempre por respeito a quem representa a comunidade. Posso dizer que estarei sempre disponível para trabalhar em articulação com o Município. Porque um partido é um meio para fazer politica. É um meio para intervir para a comunidade.

Entrevista publicada na edição n.º 205 do Mais Guimarães (a 04 de setembro)

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