Andreia Fraga: “A dança tem o poder de transformar coisas, transformar públicos”

A vimaranense diz ser “muito recetiva ao movimento”, capaz de parar no meio da rua porque está um senhor a dar de comer aos pássaros. Isso “é quase uma dança ali a acontecer”. A dança é isso mesmo, “a vida em movimento”. Dança não só para si, mas “porque pode trazer algo aos outros”.

© Joana Meneses/Mais Guimarães

A dança, acredita, “tem o poder de transformar coisas, transformar públicos. Este momento em que um público vai a um teatro e sai de lá sem falar ou irrequieto…, é isso, questionar coisas em palco”.

Há uma “bolha de artistas” e, por esse motivo, “é difícil ser reconhecido”. Muita gente e poucas oportunidades. Porém, acredita que “se não foi agora que as pessoas perceberam que a cultura é importante”, não sabe quando é que vão perceber. “Não somos nada sem cultura”.

Dois Peixes em Marte, o que atrai a atenção da sociedade?

Andreia Fraga chegou a Portugal em plena pandemia com João Oliveira, com quem partilha o palco, ou a rua, no Festival Dias da Dança. “Quando saímos de Inglaterra, sentíamo-nos dois peixes em Marte, duas pessoas deslocadas”. O nome para a peça, como é normal, foi pedido cedo, ainda não tinham quase começado e foi assim que surgiu.

© Pedro Figueiredo

A peça foi feita num espaço público com o objetivo claro de “chamar a atenção as pessoas que estão sempre tão envolvidas nas próprias vidas”. A verdade é que “muitas vezes estamos no telemóvel, stressados com o nosso dia a dia e acabamos por não nos aperceber do que se passa à nossa volta”, explica.

Numa altura em que “estamos saturados de informação”, os bailarinos quiseram perceber “o que será que chama mais a atenção numa sociedade”. Para isso, nada melhor do que simplesmente serem “verdadeiros” com a sua individualidade e serem “diferentes” à sua maneira.

Dois Peixes em Marte é, assim, “uma exploração de um espaço onde não há julgamentos, quase como se fosse um sítio paralelo onde estamos confortáveis e acabamos por dizer com o corpo aquilo que queremos”. Os objetos usados ao longo da peça são objetos que representam “memórias passadas e pessoas que, às vezes, precisamos de largar”.

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”

“A arte também precisa de ser um escape àquilo que está a ser vivido”, desabafa Andreia. Naqueles 16 minutos de Dois Peixes em Marte é isso que se quer, que as pessoas sejam transportadas para um sítio à parte e não pensem, por um segundo, no que está a acontecer.

Portugal está ainda, para a bailarina e coreógrafa, a “abraçar esta nova forma de criar menos comercial”. Contudo, é “algo que se vai educando. Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Refere o exemplo de quando mostra peças aos seus alunos. “Professora, por que é que ele abana a cabeça assim?” São estas perguntas que podem ser o início de uma aprendizagem e de uma “leitura e linguagem diferentes”.

© Joana Meneses/Mais Guimarães

“É educacional. Tal como temos esta coisa de família, de ir ao futebol com os pais, falta isso na cultura, começarmos a trazer os mais jovens”, alerta. “Muitas vezes as pessoas não vão, porque acham que não percebem ou acham que não é para elas, mas muitas vezes nem se dão a essa oportunidade”.

“Ser bailarino não é só dançar”

A vimaranense foi para a Bath Spa University precisamente por ser uma “universidade direcionada para criação de dança”. Acredita que às vezes “não se ensina que ser bailarino não é só dançar. É lidar com prazos de entregas de sinopses, mais fotografias, mais descrições da peça para entregar ao local… Uma panóplia de tarefas que não acabam, mas que todas elas fazem parte do trabalho.”

Já conhecia pessoas que são mais da área criativa da dança que não se identificaram com o ensino em Portugal e, por esse motivo, quis conhecer outras culturas. “Aqui em Portugal acho que é mais técnico, mais ligado ao ser bailarino e não tanto ao criar. O que mais me interessa é criar”. Admite, aliás, que cada vez mais quer “estar fora de palco”.

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