Ano novo, vida nova?

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

No momento seguinte ao soar da décima segunda badalada, o que é que muda? Objetivamente falando, nada. E no entanto, há uma crença coletiva no recomeço, uma promessa de mudança e renascimento que alimentam a esperança de que tudo vai mudar. Mesmo quando o mais importante (cada um de nós) não muda coisa nenhuma.

O ano de 2021, esse, vem carregadinho de promessas. Percebe-se. Depois de um maldito 2020, a expectativa está “lá em cima”, de tão baixa ser a fasquia da comparação. Esperemos, sinceramente, que o ano que vai nascer não nos surpreenda pela negativa e que não aconteça o inverso do que aconteceu com o seu antepassado 2000, ano que se previa vítima de um bug aterrorizador, o qual afinal se veio a revelar um feliz flop.

Para já, a esperança de um mundo inteiro vira-se para as vacinas. Infelizmente, quando todos deveríamos estar a aplaudir a extraordinária conquista, muitos continuam a preferir nadar nas águas turvas da ignorância, do preconceito ideológico, do mais puro cinismo ou da deslavada maledicência.

Sim, porque os já conhecidos negacionistas das vacinas, propagadores de falsas teses que teimam em associar um dos maiores feitos da humanidade a tremendos males, parecem ter encontrado terreno fértil para as suas campanhas negras. Fazem-no, parasitando os medos naturais que todos temos do desconhecido, mesmo quando especialistas de todo o mundo garantem a eficácia e ausência de riscos relevantes.

Outros exaltam o feito, mas tentam aproveitá-lo para travar mais uma guerrinha ideológica. O truque é simples: como as instituições que produziram as primeiras vacinas são privadas, aí estaria a prova indesmentível da superioridade do privado versus público. Uma tese que esquece os imensos recursos que os Estados puseram à disposição dos ditos privados; o investimento que os governos fazem em políticas de investigação e desenvolvimento sem o qual nada disto seria possível, para já não falar da incrível prova de fogo que os sistemas de saúde públicos têm aguentado e que deveria levar os defensores do estado mínimo a um prudente silêncio.

Por cá, terminamos o ano com o habitual cinismo com que muitos adoram olhar para o espelho. Que não íamos ter vacinas nenhumas; que íamos ter mas que iam chegar tarde e a más horas; que iam chegar cedo, mas que não havia plano nenhum; que havia plano mas que não íamos ter capacidade de o pôr em prática. O que se diria em Portugal se só começássemos em janeiro (como os Países Baixos) ou se se administrasse cinco doses a pessoas idosas como aconteceu, por erro, na Alemanha…

Como até agora tudo está a correr bem, sobra o fait divers e a maledicência, simbolizados na magna questão da escolha da primeira pessoa a ser vacinada. Que era típico do nosso país que tivesse sido uma chefia a ser escolhida e não alguém bem mais abaixo na hierarquia dos profissionais de saúde. Claro que sabemos que se tivesse sido como dizem, os mesmos aqui estariam a dizer que era uma vergonha que não fossem as lideranças a dar o exemplo, atirando, em vez disso, os mais vulneráveis “às feras”.

Enfim, que o ano que aí vem seja também novo na atitude que temos perante a vida, a qual, como aquele que acaba demonstrou, é demasiado frágil para nos desgastarmos com o que manifestamente não interessa para nada. Feliz 2021 para todos.

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