ANTIGA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE LORDELO

A casa ladeada pelos carris em território hoje pertencente a Moreira de Cónegos exibe ainda a designação que a tornou numa via de comunicação essencial para as populações residentes nas margens do rio Vizela que quisessem deslocar-se para Guimarães ou Santo Tirso. A azáfama das pessoas que entravam e saíam deu lugar, a partir de 2004, a um edifício fechado em si mesmo, com portas e janelas trancadas à luz exterior.

Lordelo recebeu no último quarto do século XIX parte do troço ferroviário que passou a unir a Trofa e Guimarães a 14 de abril de 1884, quando a cidade-berço recebeu a primeira viagem de comboio oriunda do Porto.

O primeiro apeadeiro da freguesia surgiu em Atainde, zona hoje atravessada pela Estrada Nacional 105, e um segundo apareceu na Giesteira, perto de Vila das Aves, antes de se construir, já no século XX, a estação num terreno então pertencente a Lordelo para servir toda a população da zona.

“Aquele edifício foi implantado mais tarde. Com o desenvolvimento das fábricas têxteis, construiu-se a estação em Lordelo para servir o máximo de pessoas que se deslocavam para Guimarães ou para Santo Tirso”, contou Carlos Guimarães, presidente da Junta de Freguesia de Lordelo entre 1997 e 2013.

O ex-autarca recordou ao Mais Guimarães o tempo em que estudava em Guimarães, por volta de 1957 ou 1958, quando o comboio, ainda a vapor, era o “principal meio de transporte” de uma comunidade que não dispunha de autocarros para se deslocar para a sede de concelho, para Santo Tirso ou até para o Porto, descrevendo também as condições existentes naquela estação de “segunda classe”.

“Havia a estação de Guimarães, que era de primeira classe, porque tinha todas as condições para o funcionamento e mesmo para reparações, mas Lordelo tinha já uma estação com apartamento para o chefe, com depósitos de carvão e água para abastecimento dos comboios. Já era uma estação com um certo significado”, reiterou.

O atual presidente da junta, Manuel Teixeira, sublinhou que o comboio era o meio de transporte “mais acessível” e “barato” para Guimarães e disse lembrar-se perfeitamente da “forma como aquilo funcionava”, com o constante “abrir e fechar das cancelas de passagem”, tendo referido que a antiga edificação ficou “logo desativada” aquando da remodelação da linha de Guimarães para o europeu de futebol de 2004.

“Na altura da remodelação, Lordelo tentou negociar a estação para colocar lá um pequeno museu dos caminhos de ferro, só que a REFER nunca esteve muito interessada em que a junta tomasse conta”, Carlos Guimarães, presidente da Junta de Freguesia de Lordelo entre 1997 e 2013

A intervenção abarcou a eletrificação da linha e a conversão para bitola larga, que permitiu a ligação à Linha do Minho em Lousado (Famalicão), com um custo de cerca de 30 milhões de euros, indica um estudo de avaliação do impacte económico do Euro 2004, publicado nesse mesmo ano pela Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho (UM). Renovaram-se ainda algumas estações e criaram-se novas, como aconteceu em Guimarães e em Lordelo.

O velho edifício ficou a meio caminho entre a nova estação, que surgiu com instalações mais amplas e modernas numa fase mais adiantada do sentido Guimarães-Porto, e o novo apeadeiro da Cuca, em Moreira de Cónegos.

Com a deslocalização, a estação aproximou-se da “centralidade” de Lordelo e de localidades vizinhas como Guardizela e São Martinho do Campo, no concelho de Santo Tirso, esclareceu o antigo presidente da junta.

Carlos Guimarães confirmou que, após a mudança de instalações, a junta tentou negociar a aquisição do imóvel à REFER, empresa que gere as infraestruturas ferroviárias nacionais, para criar um “pequeno museu dos caminhos de ferro”, mas sem sucesso.

Também o restaurante Pirâmide do Egipto, situado mesmo ao lado da antiga estação, já se mostrou interessado em adquirir o espaço, mas a REFER apenas se disponibiliza a arrendar o espaço, dada a proximidade com a linha.

“A REFER está a tentar vender todo o património que tem, mas este não vende, porque está muito próximo da linha. Se precisarem daquele espaço, têm prioridade para reutilizá-lo e não têm de nos indemnizar”, revelou Jorge Martins, trabalhador daquela unidade de restauração.

O jovem explicou que as “mais-valias do edifício são muito reduzidas”, salientando que qualquer projeto para o imóvel está sujeito a restrições como a inexistência de “janelas voltadas para a rua” para precaver uma “eventual alteração na linha” ou controlar alguma ocorrência imprevista, como um “grande acidente de comboio”.

“Eles fazem isso no sentido de aliviarem as margens do comboio, para que, no caso de acontecer algo, as coisas fiquem controladas”, afirmou.

A casa branca, que exibe o nome de Lordelo aos inúmeros passageiros que circulam na Linha de Guimarães, continua, nos dias que correm, bem trancada ao exterior, sem sinal de que se possa libertar da clausura em que persiste.

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