“Aos Dezasseis” : Um “olhar no passado” e uma “revisita à adolescência”

Depois de três dias de rodagem e cerca de 90 versões, eis que surgiu, este ano, a curta-metragem “Aos Dezasseis”, de Carlos Lobo. Para assinalar o Dia Mundial do Cinema, que se celebrou a 5 de novembro, entrevistamos o cineasta que procurou recuar até aos anseios da adolescência e envolveu, na sua primeira obra de ficção, a comunidade vimaranense.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

Apesar já estares no mundo das Artes, há uma altura em que te começas a dedicar ao cinema. Como é que surgiu este interesse?

Já faço fotografia há imenso tempo e, para além da minha prática artística, tenho uma ligação ao ensino. Sou professor na Universidade Católica e dou aulas de Cinema. Já há muitos anos que vinha a orientar projetos na área do cinema e sempre fiquei com o bichinho de um dia realizar, porque também sou frequentador de festivais como o Curtas de Vila do Conde. De repente, surgiram uma série de combinações que tornaram possível o filme, como por exemplo um apoio por parte da Câmara Municipal, do programa Impacta, para produzir curtas-metragens ou outros conteúdos audiovisuais. A história também se passa em torno do universo do skate, até porque eu já fui skater e os meus filhos também já andaram.

Porquê som e imagem na Católica do Porto? Como é que achas que está o ensino das artes em geral, e do cinema em particular, no nosso país?

Durante muito tempo a única escola de cinema que havia era a Escola de Cinema de Lisboa. Entretanto, começaram a abrir outras ofertas, como é o caso da Covilhã ou Porto, que tem dois cursos de cinema. A escola das Artes, onde agora dou aulas, abriu recentemente uma licenciatura e um mestrado em Cinema. Creio que agora, finalmente, o norte tem escolas de cinema e que isso vai dar resultados.

Como é que tem sido lecionar?

É difícil porque, apesar de estarmos com mais acesso a tecnologia, essas mesmas tecnologias também são cada vez mais distrativas e roubam-nos atenção e muito foco. Sinto que apesar do grande acesso às imagens, os alunos veem muito pouco. Ou seja, veem muitas coisas, mas veem muito rápido. Dedicar tempo a ver um filme, uma longa-metragem começa a ser difícil para quem está habituado a coisas tão rápidas como reels e tiktoks.

Neste momento tens três curtas-metragens publicadas. “Aos dezasseis” é o teu trabalho mais recente. Como foi produzir esta curta?

Foi um ato de fé porque tínhamos apenas o apoio que referi, do Impacta, mas era um apoio muito pequeno. No fundo, a curta nasce da colaboração de ex-alunos meus, que, entretanto, formaram uma produtora (a Olhar de Ulisses), e juntou-se outra produtora, a Cimbalino. Tendo os meios técnicos, a verba que tínhamos foi possível para pagar a produção, algumas licenças, a atuação da banda que entra no filme e também aos atores, que eram os skaters. Só assim é que foi possível fazer uma coisa com muito pouco, mas que tem tido resultados excelentes.

O filme retrata a adolescência de uma forma muito própria. Como foi a escolha deste tema?

É uma espécie de olhar no passado e de revisitar algumas das minhas histórias, influências. Eu já fui skater e este é um universo que domino muito. Ao mesmo tempo, queria contar esta história do que é ser jovem e do que é passar por momentos de dúvida, em que não pertencemos a nenhum grupo, nem sabemos em que grupo é que nos encaixamos. Achei que poderia contar esta história da minha forma e acho que correu bem.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

Além de teres gravado em vários espaços de Guimarães, envolveste também a comunidade vimaranense…

Todo o filme é rodado em Guimarães. Grande parte foi aqui, no skate park, outra parte é no CIAJG (logo na entrada do filme) e no CAA (um concerto). Toda a comunidade que entra no filme é de Guimarães. Aliás, o casting foi feito na Escola Santos Simões e a própria atriz também é de cá. Foi a sua primeira experiência enquanto atriz. Foi trabalhar em torno desta comunidade, até porque não tínhamos verbas para ir buscar pessoas fora, nem fazia sentido fazê-lo.

Será que o filme plantou o “bichinho” em alguém que tenha participado?

Sim, alguns miúdos ficaram curiosos. Acho que estas coisas deixam sempre sementes. Tanto pelo facto de se verem representados, mas também por perceberem que estas coisas são possíveis de serem feitas. Na apresentação do filme, no CIAJG, foram os skaters todos e fizemos a homenagem a um deles, ao Rodrigo, que entrou no filme.

Sabemos que a curta “aos dezasseis” já foi alvo de vários prémios e distinções, nomeadamente no Festival Internacional de Curtas de Vila do Conde na qual venceu na categoria de melhor realização. Aliás, citando o júri, tem os “melhores planos de abertura que o júri viu no festival”. Estavas à espera?

Foi uma enorme surpresa, uma alegria enorme. O filme, quando foi feito, tinha umas expectativas, mas nunca esperei ter esta receção. Sabia que o filme tinha os seus méritos, eu acreditava nele, mas tudo o que o filme viesse a conseguir já era um bónus. Este prémio no festival do qual eu sou frequentador, e que foi uma grande escola para mim, foi uma grande recompensa.

Como tem sido a recetividade a esta curta-metragem que já apresentaste em vários concursos nacionais e estrageiros?

Sim, já esteve em Berlim, na Berlinale. Vai estar em Itália e em Brest, o Festival Europeu de Curtas Metragens. Quantas mais salas o filme chegar, quantas mais pessoas o virem, é sempre um bónus, uma vez que as curtas têm sempre um circuito muito pequeno porque não estreiam em cinemas a não ser em festivais.

O que é que podemos esperar de ti no futuro?

Eu gostava de continuar esta história. Já tenho o argumento mais ou menos escrito. A ideia é pegar numa das personagens do “Aos Dezasseis” e contar a história dessa personagem. Neste momento, estou no processo de pré-produção, de procura de financiamento e tenho de fazer um casting. Gostava que este filme tivesse outra produção que o anterior não teve.

E por estarmos a celebrar precisamente o Dia Mundial do Cinema, enquanto cineasta, que mensagem gostarias de deixar?

Acho que o cinema é algo que temos de preservar. Cada vez vemos mais cinema em casa. Às vezes, já nem vemos nas televisões, vemos nos telemóveis. Acho que a sala de cinema é o local certo para ver cinema e é um privilégio continuarmos a ver cinema projetado em grandes ecrãs. O meu conselho é que vejam no grande ecrã porque o filme foi pensado para isso.

© Cláudia Crespo / Mais Guimarães

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