APROVEI-TE O FERIADO

César Machado,

Advogado

“Aprovei-te o feriado » Oferta de 5Eur Extra | Flash Sale » Desde 24.99Eur | “ -Aprovei-te o feriado? -O que é isto? Isto pode ler-se a qualquer momento nas promoções que nos enchem o correio electrónico, pedindo-se ou não. Aprovei-te o feriado! Era caso para dizer- Ai aprovaste? Olha, tanto melhor, fico muito agradecido!

Mas como é possível ter isto assim, à bruta, à vista de todos, um pontapé deste tamanho nesta nossa língua, tão bela quanto difícil de proteger destas aventesmas? A coisa vai de qualquer maneira e às vezes de maneira nenhuma. Restaria dizer…”de maneira que é assim”, uma daquelas verdades inteiras, redondas, que por dizerem tudo não deixam nada por dizer.

Se a coisa ficasse pela forma, seria “apenas” uma enorme e desoladora “infelizmência”, para usar um dos inúmeros e felizes neologismos introduzidos na nossa língua pelos notáveis autores da África Lusófona. A coisa já seria assinalável, ficasse ela por aí. Seria, apenas, a delapidação, a repetidos golpes de cinzel, da notável construção que representa a língua portuguesa, ainda assim, uma tortura, isso de ver maltratada uma das riquezas civilizacionais que construímos, um massacre doloroso. Se fosse “só” isso, estaríamos ainda na demonstração da “falta de qualquer coisa” entraria, apesar de tudo, na quota da ignorância, da falta de meios, talvez até de uma certa burrice, em alguns casos, generosa, burrice da grande, de verdadeiro “burro (ou burra) de pai e mãe”. Também os há em abundância, e com firma reconhecida!  O caso, porém, é mais grave.

Pior que a magnitude dos maus tratos na língua portuguesa, na sua forma, só mesmo a dimensão da inanidade e iniquidade que este meio omnipresente vem permitir, confirmando que o Criador colocou limites à inteligência mas não à estupidez, tão ilimitada ela se mostra, agora à vista de quem quer e quem não quer, que é o que a internet e as redes sociais permitem.

Umberto Eco referia que “as redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que, antes destas plataformas, apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a colectividade.” Acrescentava o Mestre que “Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel”. Segundo Eco, “antes das redes sociais, a televisão já havia colocado o ‘idiota da aldeia’ num patamar em que este se sentia superior. “O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade”.

Neste meio há lugar para tudo, desde o atento moralista, ao recadeiro amestrado, ao mensageiro que ferra às ordens de quem manda, ao parvo de todos os dias, um exército que sempre vem ao “meio social” verter a sua imensa ferramenta de ignomínia, ou invocação do seu mal com a vida, que –vá lá saber-se porquê-, insiste em partilhar com todos na envolvente, há de tudo e em doses grandes. Assumir a autoria de textos para futuro, um livro, uma publicação periódica, mais efémera mas ainda assim gravada para não mais se apagar, aí pensa-se duas vezes. Pelo menos quem confira algum respeito ao exercício de pensar e, já agora, tenha algum respeito pelo seu nome. Não assim naquela coisa de que fala Umberto Eco, que bem poderia apelidar-se de esplendor da imbecilidade, democratização da estupidez, ou, pior, do campo fértil para a mesquinhez amplificada. O que dizer disto? De maneira que é assim…não é verdade?

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