COMO É VIVER NUMA FREGUESIA NOS LIMITES DO CONCELHO

Por César Guimarães,

Presidente da Junta de Freguesia de Gonça

Gonça é a freguesia que o viu nascer e crescer.

César Guimarães é licenciado em Geografia e Planeamento pela Universidade do Minho, mas é no ramo das inspeções automóveis que tem exercido a sua profissão. Assume a presidência da Freguesia de Gonça com a legitimidade conferida pelos 68,84% dos votos das eleições autárquicas em outubro de 2017.

A freguesia de Gonça tem 7,03 km² de área (antes da reorganização administrativa de 2013 era a terceira maior freguesia do concelho de Guimarães em área territorial, só superada pelas freguesias de São Torcato e de Longos). É constituída por 1051 habitantes (sensos 2011), está situada no nordeste do concelho de Guimarães e encontra-se numa posição geográfica estratégica, confrontando com os concelhos de Fafe e de Póvoa de Lanhoso. Dista 10,5 km do centro de Guimarães e do centro da Póvoa de Lanhoso, e está a 15 km do centro de Fafe. Gonça tornou-se importante como ponto de passagem no acesso a qualquer uma destas cidades sede de concelho.

 

A economia local

Há vários séculos, que a extração e a transformação de granitos é um dos principais recursos económicos desta freguesia, nas últimas décadas o têxtil, o calçado e a construção civil (microempresas) tem assumido um papel muito importante para a estabilização do emprego e por sua vez a fixação da população.

No setor primário a agricultura de subsistência continua a ter um papel muito importante no equilíbrio da gestão orçamental das contas das famílias. Nos últimos anos, verifica-se aqui também uma tendência no que diz respeito às novas formas de fazer agricultura, com a aposta nas plantações de ervas aromáticas, dos mirtilos, dos cogumelos, da floresta e também como sempre foi sempre apanágio destas terras, a vinha. Este novo paradigma que verificamos na nova forma de olhar a terra e entender o seu valor e a sua potencialidade, trouxe uma nova esperança a vários jovens. Estas pequenas explorações quando já maduras e em fase de produção, recorrem a mão-de-obra (não são exigidas muitas qualificações) pois necessita desta para satisfazer a necessidade da apanha dos seus produtos, contribuindo assim também para o desenvolvimento económico destas pessoas.

 

Qual o impacto de Áreas Industriais nas freguesias da periferia?

Na verdade, eu entendo que tem toda a importância pois quando uma empresa é confrontada com a necessidade de mudar para maiores e melhores instalações, isso é sinonimo de crescimento. Mas não existindo estas infraestruturas é ponto assente que mais tarde ou mais cedo vamos assistir a mais uma deslocalização para uma outra freguesia vizinha com estas infraestruturas.

Não podemos esquecer que estas empresas sediadas nestas aldeias, tem uma enorme importância na qualidade de vidas das populações, assumem assim uma grande responsabilidade social. A grande maioria dos ordenados pagos por estas empresas (muitas delas familiares) são salários mínimos (580€). Mas vejamos o exemplo seguinte: uma pessoa que vive em Gonça, que trabalhe em Guimarães e ganhe um salario mínimo, necessita de dispor para trabalhar de grosso modo, 50€ para o “passe” (transporte público) e de pelo menos 110€ para almoço (valor calculado para refeição de valor igual a 5€ multiplicado por 22 dias úteis), ora podemos perceber que esta pessoa que se levanta todos os dias às 6h45 da manhã e regressa a casa por volta das 19h, resta-lhe um valor de 420€! Mas se esta mesma pessoa trabalhar em Gonça, sai de casa às 7h50, regressa a casa às 18h10 e não necessita de comprar “passe” nem almoço no restaurante. Tem mais tempo para se dedicar aos seus afazeres pessoais e familiares e o valor que vai dispor para gerir a sua vida é muito próximo do valor do salário que recebeu. Ora isto quer dizer, que uma pessoa que vive e trabalha em Gonça e ganha o salario mínimo, de grosso modo tem mais 160€ para gerir a sua vida comparativamente com aquele que vive em Gonça mas trabalha em Guimarães. Este é pelo menos um dos fatores pelo qual defendo que devemos investir se possível na criação destes pequenos parques industriais, contribuindo assim diretamente para o aumento da qualidade de vida das pessoas que vivem nas freguesias mais afastadas do centro urbano.

 

Onde viver, na cidade ou periferia?

Na verdade quando dizemos a alguém que vivemos em Gonça, normalmente as pessoas tem uma reação negativa pelo menos no que diz respeito à “distância real”: “ui!! isso fica tão longe, como consegues?”

Pois, mas na verdade não podemos viver todos no mesmo sítio (ainda bem que não!), isto de se achar que viver dentro dos Centros comerciais é que é bom! É próprio de pessoas que acham que todos temos o mesmos gostos e as mesmas necessidades mas felizmente não é assim, viver em Gonça não é sinónimo de inferioridade, nem quem vive num centro urbano é sinónimo de superioridade. Em Portugal, desde sempre fomos assistindo ao fenómeno chamado êxodo rural, a deslocação em massa das pessoas das zonas rurais para a áreas urbanas em procura de novas oportunidades de emprego e melhores condições de vida. Hoje em quase todas as famílias existe 1 ou 2 automóveis, as deslocações são realizadas com mais facilidade e com maior frequência, este fenómeno do automóvel vem de certa forma equilibrar um pouco a escolha do local para se viver, pois vem encurtar todas as distâncias. Por outro lado a importância das Vilas neste contexto, assumem um papel preponderante no que diz respeito ao aumento da qualidade de vida das populações vizinhas. Uma Vila por definição “é um aglomerado populacional de tamanho intermédio entre a aldeia e a cidade, dotado de uma economia quase autossuficiente e sendo que o sector terciário (comércio e serviços) tem uma importância relevante e lhe proporciona alguma autossuficiência econômica”. Assim quando encontramos na Vila mais próxima a solução para as nossas necessidades do quotidiano é frequente ouvir-se dizer “aqui estamos bem, estamos perto de tudo!”, mas também não é menos verdade que o contrário também provoca reações menos positivas. Como é o caso da Vila que mais nos influencia, é falta de alguns equipamentos coletivos nomeadamente uma creche, um banco, etc!

Outra questão que marca pela negativa e desgraça em muito a vontade de se querer viver numa freguesia mais afastada do centro urbano é a falta de rede de telemóvel e internet, esta falha nos dias de hoje é surreal e deveras preocupante. Podemos mesmo classificar esta falha como ameaçadora, pois impede que se contacte por exemplo os serviços de emergência (112) e interfere também diretamente na forma como as empreses se organizam. Pela positiva em relação às telecomunicações temos disponível o acesso à rede de Fibra Ótica, com 100% de cobertura e rede esta, disponibilizada pelos três operadores de telecomunicações.

Um casal amigo, com dois filhos pequenos a viverem no Porto, diziam-me. “Queria criá-los assim numa freguesia como esta, num espaço mais pequeno, mais verde e mais saudável, onde todos se conhecem e onde os miúdos ainda brincam na rua. E Gonça é assim!

Os casais que trocaram o apartamento na cidade por uma casa no campo têm outros trunfos: são qualificados, empreendedores e não dispensam as novas tecnologias, mas ainda são casos raros nos dias de hoje…

 

 

Porque Gonça continua a ser muito especial para os de cá?

Na verdade Gonça não é só importante para os de cá, mas também o foi para Florbela Espanca, quando em 1923 depois de ver publicado o  «Livro de Soror Saudade», muda-se para Gonça, para tratar da doença que sofria…

À população de Gonça sempre foi reconhecido o seu forte sentimento bairrista e por um orgulho muito próprio quanto às suas origens. Embora seja um povo humilde e amigo, mas não é certamente um povo tolo nem um povo que gosta de ser humilhado. Esta característica enraizada nos nossos antepassados deu origem ao velho ditado popular “Respeitinho à Gonça é passar com cabeça baixa e chapéu na mão!” Nós não temos vergonha da nossa história, nos não temos vergonha da nossa terra. Nós vivemos e convivemos com toda a gente. Quem vier com boas intenções, na hora de ir embora leva consigo a certeza que pode sempre cá voltar.  Esta família enorme são pessoas de coração grande sempre disponíveis ajudar o outro. Aqui, ainda hoje os vizinhos tem as chaves da porta de casa uns dos outros. Quando alguém está doente, são estes mesmos vizinhos que dão assistência uns aos outros, tomam conta das crianças, “deitam” os olhos às casas, apanham a roupa do estendal quando chove, convida-se com muita facilidade e frequência uns e outros para sentarem à mesma mesa, é muito comum por exemplo na noite de natal os vizinhos jantarem na casa uns dos outros! Esta família adotiva acaba por ter um peso e uma dimensão que por vezes ultrapassa a dimensão da família de sangue. São estas pequenas grandes coisas que damos e recebemos gratuitamente e com uma generosidade fora do comum, que nos transmite a sensação de estarmos sempre em casa! Uma ligação para a vida toda! Quando me perguntam se as pessoas aqui nesta freguesia se chateiam umas com as outras? A resposta é clara e óbvia! Até porque cada um de nós tem um “mundo” dentro da sua cabeça e uma forma própria de ser e estar na vida! Mas também respondo que “só nos chateamos com quem não conhecemos, pois com quem conhecemos só nos chateamos se quisermos!”

 

“Viver na aldeia é aprimoramos o gosto de valorizar as pequenas coisas que existem em nosso redor, coisas que cheiramos que vemos e sentimos a cada dia – coisas simples, mas que nos dão mais vontade de por cá andar.

A vida na periferia, apesar das dificuldades é algo que deve ser motivo de alegria, pois a vida por si só é um dom inestimável. A liberdade para conversar e desfrutar da verdadeira amizade… tudo somado, dividido e multiplicado acaba criando um laço muito difícil de ser rompido.” (texto de F.C.S.)

 

Muito mais haveria para dizer, sobre esta terra, sobre esta gente, mas pelo menos mais uma tem que ser dita! É com enorme honra e gosto que presido e pertenço a uma freguesia assim!

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