CONDIÇÃO DESUMANA

Por Carlos Guimarães,

Médico

Enquanto os partidos políticos e o governo se divertem à volta da lei de bases da saúde num momento em que parece fazer-se a cova do SNS, ocorrem miríades de imbecilidades que julgava impossíveis de acontecer. Centenas de doentes da região de Lisboa e a sul da capital em lista de espera cirúrgica recebem “vales de cirurgia” em que as opções de escolha se confinam a dois ou três hospitais no norte do país. Os pobres coitados confrontados com este facto fazem-se à estrada, percorrendo quase 1000 km para serem atendidos numa consulta a fim de verem programada a sua cirurgia. Fica-se com a sensação de que na proximidade da sua região ocorreu uma catástrofe de dimensões apocalípticas que dizimou blocos operatórios e cirurgiões. Acordam na madrugada escura para atravessarem o país ao encontro da dita consulta e se forem afortunados regressam a sua casa com a data da cirurgia marcada. Não o fazem por opção própria, fazem-no por desespero, escorraçados da proximidade familiar e do carinho dos amigos, saltando para o desconhecido em terras de que nunca ouviram falar e entregando-se nas mãos de médicos que nunca pensaram existir mas que irão dar o melhor de si para lhes tratar a doença. Isto é a perversão de tudo aquilo que aprendi na escola médica. Uma ligação que se estabelece débil para logo se romper. Um internamento sem direito a visitas porque a distância não permite. Eu sei que muitos fazem a viagem em sentido contrário, mas fazem-no por escolha pessoal, fazem-no porque acham que é melhor para si, fazem-no em pequeno devaneio de superioridade, fazem-no à procura das estrelas, fazem-no desprovidos do vale de cirurgia e pendurados na sua suficiente conta bancária, fazem-no para Lisboa e outras partes do mundo, POR OPÇÃO PRÓPRIA. São outra gente. Nunca imaginei que alguma vez isto pudesse acontecer. Mas acontece, e de forma crescente. Não concebo os sorrisos da ministra da saúde ou do primeiro ministro, convencidos de que estão a tomar a atitude correta. Isto faz doer. Dói a quem trata, penso que dilacera a quem é tratado e que vê a luz à distância de 400 km.

Irrita-me profundamente ler e ouvir que se criam unidades de excelência no SNS. Roda tudo à volta da excelência, atirando para a berma as reais necessidades das pessoas. A excelência do SNS deveria primariamente concentrar-se em resolver os reais problemas dos doentes, mas isso não acontece e a culpa é de todos os que fazem parte do sistema.

Todos querem uma quinta grande, bonita, bem montada e sofisticada ao invés de uma quintinha produtiva e eficaz.
Continuo a não entender a razão pela qual os doentes de Cascais, Sintra ou Lisboa são forçados a recorrerem aos pequenos hospitais do Norte quando é a sul que se concentra a maior parte dos recursos.

Mete nojo permitirem que isto aconteça, olhando para o lado quando a visão de frente é a que mostra o caminho.

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