CRÓNICAS DO TEMPO QUE PASSA

por Manuel Teixeira e Melo

Colaborador técnico-comercial de uma multinacional de produtos químicos e de empresas da indústria e comércio têxtil

O tema da educação cívica, é transversal a todas as sociedades, a todas as gerações, a todos os escalões sociais. Nunca como hoje nas manifestações mais correntes, se vem revelando de forma clara, a tendência para o uso e abuso do “calão”, da grosseria, do insulto, mesmo em pessoas nas quais, aparentemente, essa forma de comunicar não era suposto ocorrer.

Exemplo iniludível desta situação é o que se passa nos palcos desportivos, designadamente nos estádios de futebol e, mesmo fora deles, em cenários onde as paixões clubistas tendem a exacerbar-se, por exemplo, quando as claques se encontram. Pensa-se que, pelo facto de se estar num ambiente de algum à vontade e descontracção, tudo é permitido a todas as pessoas, incluindo os palavrões a esmo lançados pela boca fora sem nenhum nexo e dirigidos, quer aos intervenientes do espectáculo, quer aos adeptos do adversário, quer às autoridades policiais. Será este o resultado lógico de um desvio àquilo que deve ser a sã convivência democrática, ou será, pura e simplesmente, a exteriorização da falta de educação cívica de um povo? Quem, como espectador atento, frequentar essas arenas, dar-se-á conta, sem dificuldade, que os palavrões e os chorrilhos não escolhem nem classes sociais, nem níveis de instrução, nem níveis etários, nem mesmo, pasme-se, diferenças de género. Quão pouco edificante se torna, ver o senhor doutor, o senhor engenheiro, o senhor arquitecto, o senhor professor, o senhor empresário com carro de alta gama, a senhora toda aperaltada com o último grito da moda, soltarem impropérios desbragados, de que se orgulham, em conversa com o vizinho do lado.

O desporto, como escola de virtudes que deveria ser, passa a constituir o grande palco onde se extravasam paixões sem freio, reflexo da sociedade que temos e a que pertencemos. E depois queixam-se da violência no desporto, seja nos estádios, nos recintos desportivos, nos centros de treino, nas assembleias gerais? E que papel bem nefasto têm aqui, os dirigentes desportivos, alguns ao mais alto nível, comentadores e meios de comunicação social que lançam tantas vezes achas para a fogueira, de uma forma deliberada e com total impunidade, sem que se vislumbre nenhuma actuação consentânea da justiça desportiva.

O espectáculo desportivo, que deveria ser, como há algumas décadas, fonte de divertimento e ocupação salutar de tempos livres, em muitos casos de famílias inteiras, vê-se relegado para um tristíssimo evento, que de desportivo pouco tem, rodeado de enormes medidas de segurança e abundante policiamento, com as claques enquadradas pelas forças de segurança e supervigiadas e que de forma alguma o recomendam a pessoas comuns, muito menos crianças e adolescentes, que pretendam simplesmente fruir dessa manifestação desportiva.

Mas o que, por exemplo, se passa nas estradas e ruas das nossas cidades, entre os condutores dos automóveis e, por vezes, com os transeuntes, não é menos digno de meditação, pois o espectáculo indecoroso dos epítetos é o mesmo, com consequências por vezes mais dramáticas, porque aqui a proximidade física, leva muitas vezes ao confronto, de que só se conhece o princípio e que tantas vezes acaba mal.

Em que sociedade vivemos e que valores partilhamos com os nossos semelhantes? Onde está o meu próximo? Que sociedade queremos legar aos nossos filhos: uma sociedade mais fraterna e justa, assente na solidariedade, ou uma sociedade onde todos se digladiem e onde tudo se permita, mesmo os golpes baixos, em nome do salve-se quem puder? Ao contrário de outros que passavam, o bom samaritano socorreu o seu inimigo que precisava de ajuda. Iremos seguir o seu exemplo ou votamos ao ostracismo deliberado, aqueles a quem devemos respeito e solidariedade?

Ao próximo como a ti mesmo, não poderia ser o lema por onde deveríamos começar a lançar as bases de uma verdadeira política de educação cívica, a começar pelas famílias e pelas escolas?

 

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