DEVANEIOS

Por Tiago Laranjeiro

No rescaldo dos resultados das eleições europeias, Rui Rio afirmava qualquer coisa como ser preciso mudar a forma de fazer campanhas eleitorais, ‘com criatividade’ e fora dos moldes tradicionais. Falava, antes de mais, sobre o PSD, mas talvez não fosse muito diferente o que haveria a dizer da maioria dos restantes partidos. E, atrevo-me eu, não é só a forma de fazer campanhas eleitorais, é também a forma de “fazer política” em geral. Está dado o mote para o artigo de hoje, em jeito de devaneio diletante. Talvez soe a um artigo elitista e profuso, mas foi este o modo mais gracioso com que consegui exprimir o que esta deixa me motiva.

Concordo com Rui Rio. Ao olhar tantos rituais políticos e partidários vejo anacronismo. Bem sei que os partidos em campanha procuram ir de encontro às pessoas. Em 2019, continua-se a assumir, como em 1979, que isso acontece nos comícios, nas feiras, mercados e ruas nobres das cidades. E o que obviamente falta é proibido – publicidade em redes sociais, ações em centros comerciais (são de privados…), etc. E, em vez de se segmentar, procura-se agregar, assumindo um discurso para um eleitor-médio (o “cidadão comum”) que não existe.

Talvez os partidos da nossa democracia sejam quixotescos e, no tempo do imediatismo, da transparência e da responsividade, persistam numa idealização de comunidade que também não existe (e talvez nunca tenha existido). Porque são pouquíssimas as pessoas que vão assistir a um comício sem terem decidido votar nesse partido. Porque as pessoas das feiras e mercados são sensivelmente as mesmas com que se comunica, ano após ano, e quando lá se chega já não podem ouvir falar de política, pois é o quinto partido a falar-lhe do mesmo naquele dia. E quem vê na rua uma arruada fica a assistir do lado de fora, a ver “passar a procissão”, com direito a santo e tudo!

E, fora dos momentos de campanha, os partidos continuam (como se fossem organismos dotados de uma vida própria e autossuficiente) os seus ritos, por vezes com o seu quê de exotéricos, numa vida fechada e alheada da sociedade. O que é um enorme paradoxo, porque quem exerce responsabilidades num partido quer (e na esmagadora maioria das vezes com sinceridade) comunicar com as pessoas que vivem fora dessa bolha. Mas o ritmo inexorável da máquina, os rituais, os discursos, a comunicação, a estrutura, limitam e deformam essa vontade…

Claro que há movimentos de abertura, com conferências, programas participados, auscultação de “forças vivas”, mas tudo isto tem sido pouco para envolver. Dir-me-ão que é do receio de participar, que as pessoas não se querem comprometer (nem com relações, quanto mais com partidos!). Que há indiferença. Tudo isto estará certo. Mas há algo mais…

Talvez porque, no fim do dia, depois de todas estas encenações, muitas das decisões que importam continuam a ser tomadas à porta fechada, em grupo restrito. E porque o sistema político e os seus aparelhos, como máquinas inteligentes, foram evoluindo para maximizarem o seu poder, expurgando tudo o faz perder eficiência para maximizar o seu objetivo: o poder. Só que, ao mesmo tempo, o poder foi-se esvaindo. E não está mais nas sedes partidárias, nos edifícios de Governo ou noutros gabinetes, nem sequer nas ruas. Diluiu-se. E, tal como no poema d’ “Os Homens Ocos” de T. S. Eliot, tudo acaba, não com um BANG! mas com um soluço.

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