DUPLA CIDADANIA

por Carlos Guimarães

Médico

Quando nascemos, somos investidos de uma vida com dupla cidadania. Iremos viver em dois estados absolutamente diferentes e antagónicos: o Estado da Saúde e o Estado da Doença. A maior parte do tempo os cidadãos viverão no Estado da Saúde; contudo, mais tarde ou mais cedo, terão de usar o passaporte do Estado da Doença. Estes são, efetivamente, os direitos fundamentais à vida e todos os outros proclamados pelos ditos defensores dos direitos do povo não são mais do que alíneas escalonadas desta dupla cidadania. Infelizmente, alguns, poucos, nascem donos de um único passaporte, o da Doença.

Quando exibimos o passaporte do Estado da Saúde, somos mais democratas, independentes, desonestos, criativos, exuberantes e liberais. Temos a consciência mais inquinada, somos donos daquilo que podemos e nem sempre do que queremos. Damos importância a coisas insignificantes, lamentamo-nos perante tudo e esquecemos que também somos cidadãos do outro estado. Faz sentido. Esquecemos que muitos dos nossos lamentos seriam dádivas para os cidadãos que se encontram no outro Estado. Esquecemos que por muito maus que possam ser os dias, dias piores estarão para vir. Com o passaporte da Saúde, deveríamos acautelar e prever a evidência do outro Estado através de condutas e medidas pessoais e estruturais porque, no fundo, quanto menos e mais tarde usarmos o passaporte da Doença, melhor. Não nos devemos esquecer de ter o passaporte da Doença dentro do prazo de validade porque, quando ele caduca, deixamos de ser cidadãos e seremos apenas mais um para engordar as estatísticas dos que já não geram despesa ao Estado Pai. Os impostos no Estado da Saúde são mais dóceis que os impostos no Estado da Doença. Não há poder de voto que nos faça renunciar ao Estado da Doença.

Quando entramos no Estado da Doença podemos usar o passaporte temporariamente ou definitivamente. O Estado da Saúde nunca é Permanente. Ao usar o passaporte da Doença entramos num Estado mais autoritário e castrador, que nos exige mais deveres e nos oferece poucos direitos (e de nada nos adianta reivindica-los), um Estado pouco democrata, mais ditador e ao contrariar as suas leis atentamos contra nós próprios. Por vezes é um Estado absolutista, que nos aperta, nos confunde e nos isola. Ficamos mais sós.

Quando o Estado da Doença nos dá a oportunidade de voltar ao outro Estado, a sorte passeou connosco. Devemos ser mensageiros da nossa aprendizagem no Estado ditador, uma vez que mesmo o vil pode sempre fazer bem. As regras que nos foram impostas devem servir para que sejamos mais solidários e compreensivos ao exibir de novo o passaporte da Saúde. Impõe-se dar mais e exigir menos, alargar caminhos para evitar o uso do passaporte da Doença e seguir afastados da mesquinhice, da inveja e da maldade, porque no fim das contas isso nada vale e nada acrescenta à nossa felicidade.

Na nossa dupla cidadania não devemos esquecer que a vida que trilhamos depende do acaso, escolhas e oportunidades e só o acaso não pode ser contornado. O mal dos outros também se pode converter nosso mal se for essa a vontade do acaso ou infortúnio das nossas opções. De nada vale a fortuna ou o prémio milionário se nos for retirado o passaporte da Saúde.

 

 

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