E depois da pandemia Senhor?

Por Adelina Paula Pinto, Vice-presidente e vereadora da Câmara Municipal de Guimarães

A nossa vida está absolutamente condicionada por esta pandemia que nos assolou nos últimos meses! De repente as nossas preocupações centram-se nos números de infetados diários, nos rankings dos concelhos, nos testes, nos internados nos hospitais e numa enormidade de temas que gravitam à volta desta questão. Até o nosso vocabulário se enriqueceu nestes meses, desde a zaragatoa, os testes PCR, os testes rápidos, a carga viral, a quarentena, o isolamento profilático, todos hoje dominamos estas novas terminologias.

Paralelamente cresceram de forma exponencial os especialistas em COVID-19. De repente aparece um número absolutamente impensável de especialistas em COVID-19, ou em SARS-COV-2, ou em máscaras, ou em testes, ou em confinamento. De repente todos têm opinião e, mais grave que ter opinião (porque isso todos temos o direito de a ter), é a forma agressiva ou mesmo violenta como a querem fazer cimentar e exercer predominância sobre os verdadeiros especialistas. De repente parece que estamos num mundo absolutamente horizontal, em que todos fizemos o mesmo percurso académico e profissional e daí termos direito às mesmas opiniões/considerações e/ou decisões.

E é aqui que pretendo chegar! Que mundo vamos ter após esta pandemia? Sim, vai ainda demorar uns meses, mas este vírus vai começar a ser controlado, quer pela imunidade que uma parte da população vai conseguir, quer pela vacina, quer pelas regras de vida que vamos interiorizando! Mas estas alterações comportamentais que efeitos vão ter na sociedade do futuro?

Sou uma pessoa absolutamente positiva, acredito sempre no melhor das pessoas, consigo sempre ver uma qualidade e acredito, verdadeiramente, que as pessoas têm sempre algo de bom! No início da pandemia, pelos idos de março, eu dizia sempre que a pandemia ia trazer ao de cima o melhor de nós, a solidariedade, a capacidade de colaboração para lutarmos contra um inimigo comum! Lembro, com saudade, das pessoas que se apresentavam para ajudar, nos agradecimentos sentidos ao pessoal da saúde, a forma como as doações apareciam, num tempo tão incerto, num confinamento total, num tempo em que pouco se sabia sobre o vírus.

Hoje, 8 meses depois, começo a ter muitas dúvidas que esta pandemia traga ao de cima o melhor de nós! Basta abrir qualquer rede social para ver o pior de nós: o ódio, a crítica fácil, o desrespeito por quem toma decisões, seja a que nível for! E quando olhamos para estes críticos profissionais rapidamente percebemos que deles não sai uma ideia, uma ajuda, uma vontade de refletir, ou sequer uma vontade de mudar o seu próprio comportamento. Aliás todas as críticas duras que fazem servem de justificação para os seus comportamentos, eles é que sabem e agem como tal! E não se limitam a criticar decisões/opções/ considerações, ofendem as pessoas, usam linguagem absolutamente imprópria, denegrindo, levantando dúvidas, desrespeitando o próprio sistema democrático. E muitos vão ainda mais longe, mentem descaradamente, fazendo com que a demagogia impere e conseguem dessa forma arregimentar um grupo que os segue!

Esta é uma realidade mundial, não tenho dúvidas! O anonimato que as redes sociais permitem veio trazer uma liberdade que não tem limites! Por trás dum qualquer aparelho eletrónico, muitas pessoas transformam-se, a xenofobia, a homofobia, o bullying sobre determinadas pessoas ou grupos é absolutamente imparável. Não tenho dúvidas que muitos destes pensamentos agora expressos já existiam no pensamento de muitos, mas não ousavam colocá-lo publicamente. E hoje isto é feito com a maior normalidade! E mais assustador ainda o número de pessoas que logo concorda, que acrescenta mais ódio, mais um sem número de impropérios.

Um número substantivo de cientistas de todas as partes do mundo tem estado nos últimos meses completamente centrados na vacina para combater este COVID-19 e ainda bem que o fizeram! Mas é preciso mais, é necessário que outros cientistas de outras áreas sociais (sociologia, psicologia, comunicação, história, filosofia, literatura), encontrem também uma “vacina” que combata este flagelo que vai ficar, permanecer e minar a nossa sociedade!

Num tempo em que o Natal se aproxima, que temos tanta gente a passar mal, que temos as questões da Saúde Mental bem presente em quase todos os grupos etários, precisamos de nos unir enquanto povo. Precisamos ser mais colaborativos, mais empáticos, precisamos entender o outro, dar o nosso contributo ativo, este é um problema de todos! Esta é uma guerra, com a particularidade de termos um inimigo invisível, inteligente, flexível e que ganha a um povo dividido, fragilizado e contaminado pelo ódio e pela crítica pela crítica.

Quero muito voltar a pensar que esta pandemia traz ao de cima o melhor de nós! Quero voltar a ver a disponibilidade de tantos para ajudar, quero ver a critica a decisões e não critica a pessoas, quero ver uma palavra amiga e não um insulto ou uma mentira! Cada um de nós consegue fazer isto! Eu comprometo-me a fazê-lo!

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