E, NO ENTANTO, ELA MOVE-SE

Por Tiago Laranjeiro

Galileu Galilei, depois de ter rejeitado em tribunal a tese heliocêntrica, terá murmurado entre dentes: “E pur si muove”. “E no entanto ela move-se”. Olhando para os desafios coletivos que enfrentamos em 2019 foi esta a frase que me veio à memória. Este será um ano de escolhas políticas, e apesar de tudo parecer de momento estacionário, sem alterações profundas ao cenário atual, há mudanças estruturais a acontecer.

Olhando para as eleições europeias de Maio, as perspetivas atuais apontam para uma incerteza. O método D’Hondt poderá, em Portugal, permitir que tudo permaneça na mesma, a nível de contagem de mandatos, mas um enorme aumento da dispersão de votos parece hoje uma certeza. A nível político, isto é, das propostas, parecemos também continuar a olhar para “a Europa” (esse ser exterior a nós e distante) como um adolescente olha para o pai, que sobre ele exerce algum controlo e fiscalização, e de quem espera a “mesada” para seu contentamento. Quanto ao mais, continuará o discurso da crise europeia, da necessidade de uma definição quanto ao futuro – e esse é o único discurso que ouvimos desde a entrada do euro. Parece que todos nos resignamos ao estado de negação enquanto estado da União.

Em Portugal, a caminho das legislativas, tudo parece também em estado estacionário, imune aos choques sistémicos que têm ocorrido noutros países ocidentais. Ninguém parece acreditar que maiorias absolutas sejam alcançáveis, e poucos parecem crer em alterações profundas na hora de converter votos em mandatos. Pelo meio, decresce a efetiva representatividade dos cidadãos, refletida na abstenção, na dispersão de voto em pequenos partidos e no voto nulo, que se transformaram no elefante na sala, que muitos teimam em ignorar.

Nas discussões que importam, continuamos com os mesmos termos e quadro mental de há trinta anos, ignorando as esmagadoras projeções demográficas e empobrecimento coletivo real.

Na Saúde nada parece funcionar, exceto a boa vontade dos políticos no ato de fé de que o sistema se deve manter como está, apesar da acumulação de erros e pequenas falências no Serviço Nacional de Saúde, apesar do esgotamento dos profissionais e das infraestruturas, apesar do eminente desabar da ADSE. E, na Saúde, como na Educação ou Segurança Social, continuamos o debate em termos de público contra privado, como se virtudes e defeitos fossem exclusivo de um ou de outro. No meio da miopia deste debate esquece-se que ao cidadão não importa se o prestador é público ou privado, desde que o serviço seja de qualidade e o preço suportado, diretamente ou através de impostos, seja aceitável.

Tudo parece na mesma. Mas os problemas acumulam-se, aumentando de dimensão. Os sinais de falência operacional nos serviços públicos também – ultrapassados que foram os de falência financeira do início da década. E uma coisa é certa: dada a dimensão dos problemas, chegará um ponto em que não poderemos fechar mais os olhos aos elefantes que se passeiam nas salas da nossa vida coletiva. Tudo pode parecer estar mais ou menos na mesma, mas a estratégia de “negação” dos problemas não é sustentável no longo prazo. Parafraseando o príncipe de Falconeri, até para que tudo permaneça na mesma é preciso que algo mude.

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