E se estivéssemos impedidos de abraçar?

Dois amigos, a Menina Abraços e o Oli, estão perdidos no tempo. É um tempo em que se veem inibidos de manifestarem o afeto que nutrem um pelo outro. Como lhes sobra tempo, vão tentando encontrar maneiras e caminhos de contornarem essa proibição e descobrirem novas formas de se abraçarem, sem se abraçarem fisicamente.

© Mais Guimarães

Foi este o mote da peça de teatro aBraços, apresentada esta segunda-feira, no Teatro Jordão, aos alunos da EB1 Oliveira do Castelo e EB 2,3 João de Meira.

Ao longo desta manhã, dezenas de crianças aguardavam ansiosamente por verem o resultado final da peça, que refletiu as suas ideias e pensamentos.

“Como professores e seres humanos, notamos, ao longo da pandemia, que houve uma desassociação com o contacto humano, a afetividade e a proximidade, principalmente nas crianças, que foram aquelas que sofreram mais com isso, uma vez que estão numa idade muito afetuosa”, começou por explicar Sérgio Macedo, professor de EMRC da EB 2,3 João de Meira, que interpreta a personagem Oli.

O autor da iniciativa lançou o repto à Companhia de Teatro de Santo Tirso, da qual faz parte, para “criar uma peça a partir dos alunos e daquilo que eles sentem relativamente a esta questão de estarem a braços com esta proibição de darem abraços e mostrarem afeto”.

O primeiro passo consistiu na criação de um podcast com as crianças, no qual foram abordados temas como a forma, sabor, cheiro e sentido dos abraços, mas também qual o melhor abraço que já deram ou aquele de que mais sentiram falta.

Depois de quatro horas e meia de gravação, eis que surgiu a hora de construir a história que deu vida à peça, juntamente com Sara Salgueiro, a Menina Abraços.

“Ao longo do processo, nomeadamente na dramatização e cenário, contamos com a ajuda das crianças. O objetivo é que a peça seja o mais próxima delas possível. Desta forma, distribuímos desenhos aleatórios às crianças, contamos parte da história, e eles foram fazendo desenhos e pintaram as cores dos figurinos e do cenário em si”, elucidou Sérgio Macedo.

© Mais Guimarães

Para Sara Salgueiro, aluna de Teatro da UMinho, esta peça de teatro “dá uma tomada de consciência de que muitas vezes vivemos em “automático” no nosso dia a dia. Desvalorizamos as pequenas coisas e as pequenas manifestações de afeto, mas é isso que nos sustém diariamente, mesmo quando os dias são mais complicados”.

Assim, a menina Abraços surge como alguém que “pode viver de espalhar essas pequenas sementes, alertando que aquilo que distingue o ser humano é a capacidade de voluntariamente e espontaneamente manifestar esse afeto”.

A estudante de teatro, que interpreta a menina Abraços, destaca que se tratou de uma “maratona”, uma vez que tiveram a seu encargo todo o processo de criação, concepção e interpretação”, que se refletiu numa  “experiência muito gratificante, sobretudo quando a reação das crianças é tão boa como foi hoje”, acrescentou.

Para assistir às duas sessões da peça foi ainda convidada uma comunidade sénior. A calorosa receptividade dos mais jovens e dos mais velhos e a identificação com a mensagem transmitida foi sinónimo de que “estamos de facto a braços com um afastamento humano, que temos de combater nas escolas, em casa, nas famílias e na nossa vida pessoal e profissional”, finalizou Sérgio Macedo.

Por último, o professor destaca um momento, entre os muitos vividos aquando da gravação do podcast. “Quando questionamos o que é que acontece se não tivermos abraços, uma criança respondeu que “para abraçar, basta ter braços”. Prontamente, outra questionou: “E se não tiver braços?”. A resposta foi: “Abraça com o coração”, contou Sérgio Macedo, garantindo que esse episódio resume todo o projeto.

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